17 de Janeiro de 1995 – data de falecimento do escritor Miguel Torga (1). Este ano em que se comemora os 110 anos do seu nascimento, recordo aqui a edição do livro «O Senhor Ventura», (2) bilingue, de 1989, do Instituto Cultural de Macau. A tradução para chinês é de Cui Wei Xiao.
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CAPA de MIO PANG FEI

O próprio escritor considera esta sua novela de 1943 “o elo mais fraco” da sua vasta obra (3); escreveu-a em 1943, mas só a publicou em 1985 (4), no entanto considero este pequeno romance um dos mais conseguidos da sua vasta bibliografia.
São 170 páginas (em português) e 142 páginas em chinês, divididas em três partes, cada uma com diversos pequenos capítulos que constituem a história de uma vida ficcionada, do senhor Ventura, que, aos vinte anos de idade, vai para a tropa, deixando Penedono e que, após a recruta, é mobilizado para Macau. História de amores, amizades e parcerias, dois relacionamentos marcantes na sua vida: o minhoto Pereira e a russa Tatiana.

o-senhor-ventura-miguel-torga-lombadaEle tinha o poder dos seus músculos e da sua vontade a cegueira da ambição e uma tenacidade irresponsável de selvagem.”

(1) Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha) (1907-1995), poeta (primeiro livro de 1928) escritor (primeiro livro em 1932), dramaturgo, ensaísta, contista e memorialista. Os livros mais conhecidos: “Os Bichos”, os “Diários” e “Contos da Montanha”.
Anteriores referências neste blogue:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/miguel-torga/
(2) TORGA, Miguel – O Senhor Ventura. Edição bilingue (português e chinês). Tradução de Cui Wei Xiao. Instituto Cultural de Macau, 1989, 251 p., ISBN 972-35-0072-8.
o-senhor-ventura-miguel-torga-1-a-pagina(3) Prefácio do livro, do próprio autor (Coimbra, Maio de 1985) nesta edição bilingue:
Escrito de uma assentada há mais de quarenta anos, na idade em que os atrevimentos são argumentos, nele deixei a nu toda a fantasia descabelada e toda a canhestrez expressiva que se tem impunemente na juventude. Mas tão embaraçado fiquei, quando na maturidade o reli, que fiz os possíveis por esquecê-lo e por que fosse esquecido. Hoje, porém, nesta vertente da vida em que se olham com lucidez e benevolência os verdores da mocidade, resolvi recuperá-lo. Pacientemente, limpei-o das principais impurezas, dei um jeito aos comportamentos mais desacertados, tentei, enfim, torná-lo legível. Por ele e por mim. Por ele, porque, apesar de tudo, conta uma história portuguesmente verosímil, dado que somos os andarilhos do mundo, capazes em todo o lado do melhor e do pior; por mim, porque nenhum autor gosta de deixar no espólio criações repudiadas.
(4) TORGA, Miguel – O Senhor Ventura. 1.ª edição em 1985. N.º 43 da coleção Mil Folhas. Ed. Público Comunicação Social SA. Lisboa.