“Macau, 13 de Janeiro de 1927 (1)
… (…) … Eramos convidados do celebre cabeça Lei-lam, que há muito insistia pela minha visita, assegurando a abundância de perdizes na ilha, onde poderíamos caçar com toda a segurança até à hora do almoço que ofereceria em minha honra.
Tentado pela originalidade do convite e confiado na palavra do pirata, acedi ao pedido, saindo um belo dia de Macau com um grupo de caçadores a bordo da canhoneira Pak-tou das Alfândegas chinesas.
A certa altura do rio passámos por uma sampana de Lei-Iam, seguindo pelos enredados canais que recortam o famoso delta, transpondo barragens sobre barragens até ao cais de desembarque em Pakchiu. No cais eramos aguardados pelo filho do pirata, um verdadeiro gentleman educado na América, vestido à europeia em traje de caça, que me saudou em correcto inglês.
mapa-do-rio-de-cantao-1927-o-cruzador-republica-na-chinaUma escolta de polícias bem uniformizados e armados de pistola fazia a guarda de honra, seguindo-nos depois a distância durante todo o tempo que nos demorámos na ilha.
A caçada foi muito feliz, cabendo as honras ao Dr. Serrasqueiro Rossa, médico do República e exímio atirador.
O almoço foi uma magnífica comida china, com a indispensável sôpa de barbatanas de tubarão, ovos pôdres e outros pratos exquisitos, tudo regado com vinhos portugueses e lipum.
Depois do almoço os caçadores saíram a dar mais uma volta, mas eu fiquei com Lei-Iam que insistiu comigo para fumar um cachimbo do ópio. Ora eu que nem tabaco fumo, lá acedi às instâncias do meu hospedeiro, ficando a dormitar na cama apropriada à complicada operação.
embarcacoes-de-pesca-1927-o-cruzador-republica-na-chinaA certa altura senti que alguém me tocava. Entre-abri um ôlho desconfiado. Era o velho pirata que carinhosamente me cobria com um edredão de sêda, porque fazia muito frio.
Ficámos depois a conversar, e Lei-Iam, um dos mais temidos piratas nesta região, explicou-me que era muito amigo dos portugueses, tendo por isso dado ordens terminantes para que os seus homens não praticassem qualquer atentado contra gente de Macau. E era verdade.
(1) Um dos relatórios do Comandante em Chefe das Forças Navais Portuguesas no Extrêmo Oriente do Comodoro Guilherme Ivens Ferraz, publicado nas pp. 362-363 de:
FERRAZ, Guilherme Ivens – O Cruzador “República” na China. Subsídios para a História da Guerra Civil na China e dos Conflitos com as Potências. Academia de Marinha, 2.ª edição (fac-simile da 1.ª edição de 1932),  2006, 654 p.