Pescu (1) já dâ fula, (2)
Câbóla  contente:
Nhonha (3) bixigosa
sab´inganá gente

Ade (4) pide chúa (5)
Sápu pidi vento:
Nhonhónha (6) bunita.
Pidi casamento.

Nhonha na jinella
Cô úla mogarim (7)
Sua mài tankaréra (8)
Sua pai canarim

Casamento fêto
Na ponta de lenço;
Quim casá cô preto
Tem pôco sintimento.

Eu masqui (9) sã preto
Sã minha naçan:
Panhá vento suzo (10)
Ficá côr de jambulan (11)

Eu passá na vôsso pórta,
Já tócá na fichadura,
Vanda dêntro (12) respondê:
Passá fóra criatura!

Ingrata, ingrata
Côraçan de vidro:
Sem nada, sem nada,
Ficá mal cômigo!

Eu querê pra vôs,
vôs querê pra ôtro;
Deus lô (13) castigá,
Fazê vôsso ôlo (14) tôrto,

Eu pra olá pra vôs,
Passá vanda hórta,
Espinho chuchú (15) pê,
Sangui góta góta  (16)

Quim querê pr´a eu
Passá vanda gudan (17);
Andá manso, manso (18),
Nomestê québrá buian (19)

(1) Pescu – pêssego; Arvre de pescu – pessegueiro
(2) Dá fula – deu flôr, floresceu
(3) Nhonha – menina solteira ou senhora casada nova
(4) Ade – pato; em português, adem = pato real
(5) Chúa – chuva. Mulá é corrupção de molhar
(6) Nhonhónha – plural de nhonha
(7) Mogarim – do indiano mogra ou mogri : flôr, de forte e delicioso perfume, do Jasminum Sambac. As mulheres chinesas, principalmente as prostitutas, enfeitavam-se com essa perfumada flôr.
(8) Tankaréra – Tancareira – mulher chinesa que tripula o “tancar” – barco
(9) Masqui – vem do malaio – masqui seza – apesar de ser, ainda que seja
(10) Vento suzo Panhá vento suzo = apanhar vento sujo
(11) Ficá côr de jambulan – ficar negro pois jambulan, a fruta tem a cor roxa-escura.
(12) Vanda dêntro – da banda de dentro; do lado de dentro me responderam
(13) por lôgo – lógo
(14) Ôlo – olho
(15) Chuchú – espetar (provalvelmente derivado de chuço)
(16) Góta góta – gotas sobre gotas, em quantidade
(17) Gudan  – gudão – rés-do-chão, loja. Também significa armazéns, csas térreas para arrecadação de mercadorias.
(18) Manso manso – de mansinho, de vagar, com cuidado, com cautela.
(19) Québrá buian – partir  o boião
PEREIRA, J. F. Marques – TA-SSI-YANG-KUO, série I -Vols I e II. Lisboa, 1899-1900, 812 p.