Archivo Historico de Portugal n.º 39-1890 MACAU p.154MACAU – Nas costas da China e no golpho onde se lança o rio tigre, surge do seio do mar uma ilha montanhosa, chamada pelos chins Negao-Men. Tem dez leguas de comprimento. Na extremidade oriental d´esta ilha está edificada a cidade de Macau.
A historia d´esta nossa possessão é tão honrosa para Portugal, que a adquiriu, como para o imperio da China, que lhe cedeu esse territorio. Da parte dos portuguezes significa um serviço importante, de leaes amigos, prestado à China em occasião de apuro. Da parte dos chins representa um acto de gratidão nacional por esse serviço.
Na primeira metade de seculo XVI, estando recentes as nossas primeiras relações com o celeste imperio, foram as costas d´este paiz infestadas por piratas, que commettendo roubos e horriveis carnificinas, espalhavam o terror por todos os mares e portos do imperio. O numero e a audacia dos piratas zombaram do poder do imperador Khang.Hi, tornando-lhe inuteis todos os seus esforços… (…)
Archivo Historico de Portugal n.º 39-1890 MACAU p.155… Os fundadores de Macau tinham sabido crear, pela uma actividade e energia, uma situação prospera para a colonia. Mas os seus descendentes amollecidos pelo clima e pelos sosos da riqueza, foram trocando os habitos activos da Europa pela indolencia e apathia das raças asiaticas. Achando nos chins bons operarios, habeis corretores, e caixeiros intelligentes, foram pouco a pouco descançando n´elles, encarregando-os de quasi tudo quanto era trabalho. A remuneração liberal d´esses serviços foi attrahindo à cidade, primeiramente a classe laboriosa da parte chineza da ilha, e mesmo do continente, depois innumeraveis vadios e malfeitores. D´este modo a população chineza de Macau em pouco tempo excedeu muito a portugueza… (…)
Archivo Historico de Portugal n.º 39-1890 MACAU p.156… O aspecto da cidade, vista do porto, é mui formoso e pittoresco. Está edificada em amphitheatro sobre uma extensa bahia. Parte d´ella, sentada à beira do mar, ostenta numa longa fileira de casas construidas ao uso da Europa, resplandecentes de alvura, e algumas com seus adornos architectonicos. Outra parte eleva-se sobre uma collina pedregosa, mediando entre ambas os palmares e mais arvores dos quintaes e jardins. Finalmente coroam-se os montes sobranceiros à cidade com fortalezas, conventos e templos, que contrastam com as negras rochas graníticas, que lhe servem de base…(…)
… Os trajos variados, e na maior parte de côres garridas, da população chineza, que percorre as ruas e anima os caes; a diversidade de embarcações, que estanceam no porto, muitas de fôrmas singulares e exquisitas, empavesadas de flamulas e bandeiras multicores; e enfim os resplendores do sol, e a poreza da atmosphera em dias claros, dando brilho e realce a tudo isto, completam um quadro qure surprehende e encanta os viajantes… (…)
… A cidade de Macau tem por brasão as armas reaes em escudo de prata, e em volta lê se o seguinte: Cidade do nome de Deyus não ha outra mais leal.
A etymologia do nome de Macau vem de duas palavras chinezas, Ama e Cau. A primeira designa o idolo de um pagode, que ali havia desde tempos remotos. A segunda quer dizer porto. Começando o portuguezes a chamar ao sitio Amacau logo que ahí estabeleceram, deram à cidade com pouca differença o mesmo nome. (1)
(1) “Archivo Historico de Portugal: narrativa da fundação das cidades e villas do reino, seus brazões d´armas, etc “,  n.º 39 Anno de 1890, 2.ª série, pp. 153, 154, 155, 156. Typ. Lealdade – Rua do Terreirinho, 17, 1.ª
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/ArchivoHistorico/IISerie/IISerie_master/ArchivoHistoricodePortugal_SerieII.pdf
Como o título sugere trata-se de uma publicação centrada no passado, uma espécie de enciclopédia fasciculada, distante ou alheia ao conceito de imprensa. Sintomaticamente, não é indicado nenhum responsável pela publicação, como a lei então vigente exigia à imprensa. Sobre este periódico que se publicou de 1889 e 1890 (52 números) ver:
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/ArchivoHistorico.pdf