«No dia 2 de Agosto de 1709, sexta feira, indo a cavalo, para S. Francisco, António de Albuquerque Coelho lhe atiraram no campo de S. Francisco, com um bacamarte mas não lhe acertaram por ser disparado por um cafre. Foi o António de Albuquerque sobre o cafre, que lhe havia atirado, até à rua Formosa e na volta que fez, pelo não poder apanhar lhe atiraram outro tiro da janela da casa, que tinha sido de Bernardo da Silva e vivia nela uma mulher, por nome Francisca Espinhosa, a qual tinha o seu marido ausente.
O que lhe atirou o tiro desta casa foi D. Henrique de Noronha e lhe deu no braço direito, por cima do cotovelo. Ele, assim mesmo ferido, foi recolher-se a S. Francisco e ao chegar ao pé da escada deste convento lhe atiraram com outro bacamarte, porém, não lhe acertaram, por ser disparado por outro cafre. Chegando ele à portaria, assim mesmo a cavalo, já não se pôde apear e foi preciso ajudarem-no.
Recolheu-se, neste convento, onde o cirurgião da Fragata de Goa e o Cirurgião da Cidade António da Silva o curaram e disseram que não era nada.
Porém, depois de 16 dias de “cura” e se não aparecesse um navio inglês que ia para Cantão, o qual mandou o seu cirurgião que vendo o dito braço logo disse, que estava podre e se quisesse escapar com a vida era necessário cortar-se.
Com esta resolução se pôs por obra a operação que se fez com muita brevidade e logo em breves dias se achou melhor» (1)
Conclui o Dr. Caetano Soares (1): “É o mais importante acto cirúrgico de que há menção como realizado em Macau por aqueles anos e não poderá dizer-se, que ficasse a abonar muito da capacidade dos seus assistentes iniciais – não, o pobre cafre, cirurgião da Fragata de Goa, mas o cirurgião do Partido, António da Silva, que só tardiamente dera conta do processo gangrenoso de resolução excedente às suas forças.(2)
No decurso dos preparativos para a amputação houve ainda outra nota digna de referência:
« Na ocasião em que o cirurgião inglês lhe deu a notícia de que se queria escapara com a vida deixasse cortar o braço, mandou ele António de Albuquerque saber da sua noiva (3) se queria casar com ele, tendo de menos um braço. Esta menina mandou dizer, que ainda que a ele faltasse ambas as pernas, ficando com vida, queria casar com ele.
É onde pode chegar o extremo amor de uma mulher de capacidade que, considerando ser a falta do braço por sua culpa, o não quis recusar…»
(1) Manuscrito «Colecção de vários factos, que hão acontecido nesta Cidade de Macau …» de autor desconhecido in SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência, 1950, pp. 62-63.
(2) (3) Episódio já narrado em anterior postagem; a noiva era Maria de Moura. Ler em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/09/26/noticia-de-26-de-setembro-de-1693-antonio-da-silva-cirurgiao-da-cidade/