Ainda acerca da data do estabelecimento dos portugueses em Macau , a versão do Visconde de Santarém no livro de 108 páginas publicada por Júlio Firmino Judice Biker (sócio correspondente do Instituto de Coimbra, na Imprensa Nacional, em 1879), já referido em (1),
1 – “Memória sobre o estabelecimento de Macau” escrito pelo Visconde de Santarém
Memória do estabelecimento dos Portuguezes em MacauA história do nosso primordial estabelecimento em Macau teve o destino de quantos fundamos. Deixaram-na os nossos escriptores involta na maior escuridão, por isso que não produziram os titulos authenticos da nossa posse e domínio, e quando por casualidade délles fizeram menção, parece que de industria quizeram occultal-os aos vindouros, de sorte que é mister actualmente consumirem-se em investigações annos e annos para se desfiar a meada de confusões, e resolverem-se os problemas que nos deixaram por herança”.(1)
“A-pesar-de tôdas as investigações feitas nesse sentido, nada se conseguiu apurar de exacto e positivo àcêrca do estabelecimento dos portugueses em Macau, o que levou o erudito e distinto lusófilo inglês, Cap. Charles Ralph Boxer, a escrever ainda há pouco: «The exact origins of the colony are still, and likely to remain, wrapped in obscurity»: «As origens exactas da colónia estão ainda, e parece que hão-de ficar, envoltas na obscuridade».Tentemos, contudo, levantar um pouco a ponta do véu, citando algumas referências, coligidas de fontes chinesas, portuguesas e estrangeiras sôbre tão estudada e debatida questão.
Robert Morrison, citando na sua «Vista da China» o Ming Shih, diz que «os Europeus vieram primitivamente em 1535 a Macau e tinham em 1537 habitações na Ilha.»
O escritor chinês Tien-Tsê-Chang, no seu precioso livro «Sino-Portuguese Trade» pág. 87, diz: «Ainda que o estabelecimento de Macau não atraíu a atenção senão aí pelo ano de 1557, contudo o uso dêste pôrto para fins comerciais data de mais de duas décadas atrás. No período de Chêng-tê, 1506-1521, as autoridades de Cantão convidaram os comerciantes estrangeiros a dirigir-se a um lugar costeiro, chamado Tien-po (電白) para as transações comerciais. Fica a sudoeste da cidade de Cantão e cêrca de 180 milhas por terra distante dela. Em 1535, isto é, imediatamente depois de haver recomeçado o comércio estrangeiro (pois, como se disse, os estrangeiros eram proïbidos em Cantão desde 1521), as autoridades, a pedido do Pei-Wo, Huang Chíng(黄慶) diz-se que Huaug recebeu um presente para fazer êste requerimento, segundo Ming Shih ch. 325 p. 96) passaram a alfândega para Macau, onde, a princípio, o govêrno auferia dos direitos alfandegários a soma de 20.000 taéis por ano.»
Vemos, pois, que o consciencioso escritor chinês Tíen-T’sê Chang que, entre muitas outras, consultou também as fontes chinesas, que cita a cada passo, diz que a alfândega se estabeleceu em Macau em 1535, vindo esta Colónia a atrair a atenção apenas em 1557. Morrison, como vimos, também nos dá a data da vinda dos portugueses para Macau em 1535, dizendo-nos que tinham habitações na ilha em 1537. A esta mesma data se refere Williams, quando escreve no Middle Kingdom, Vol. II,pág. 428: «Já em 1537 existiam três colónias portuguesas perto de Cantão, as quais eram: a primeira na Ilha de Sanchuan, na Ilha de Lampacau a segunda e a terceira em Macau, última a ser estabelecida».(2)

2.º Visconde de Santarém c. 1850Retrato do 2.º Visconde Santarém c. 1850 na Sociedade de Geografia de Lisboa

Concorda com a mesma data (1553) o que se lê na Memoria do Visconde de Santarém: «Na obra de Morrison se acha trasladado dos livros chineses  um fragmento àcêrca do nosso estabelecimento em Macau, e é o seguinte, que o célebre sinólogo Abel Rémusat, achando que a tradução de Morrison não era exacta, traduziu da maneira seguinte:
«La 32.me année Kin-thsing (1553) des vaisseaux étrangères abordèrent á Hao-King. Ceux qui les montaient racontèrent que la tempêste les avait assaillis, et que 1′ eau de la mer avait moillé les objets quíls apportaient en tribut. Ils désiraient quón leur permit de les faire sécher sur le rivage de Hao-King. Wang-pe, commandant de la côte le leur permit. Ils n’élevérent alors que quelques dizaines de cabanes de jonc. Mais des marchands attirés par léspoir du gain vinrent insensiblent, et construisirent des maisons de briques, de bois et de pierres. Les Folang-Ki (os Francos) obtiurent de cette manière une entrée illicito dans lÉmpire. Ainsi les étrangeres commencèrent à s’établir à Macáo du temps de Wang-pe» (1)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/05/01/leitura-memoria-sobre-o-estabeleci-mento-de-macau-escripta-pelo-visconde-de-santarem-i/
(2) http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP275/index.htm