Numa postagem anterior “ANÚNCIO -SOCIEDADE DE ABASTECIMENTO DE ÁGUAS DE MACAU LIMITADA (S.A.A.M.)”, (1)  referi que o primeiro reservatório público de Macau foi construído em 1924 no vale da Colina da Guia, (2) mas que devido ao seu tamanho, poucas centenas de metros quadrados de área, muito limitado para o abastecimento de água público, foi abandonado  o seu uso (e também porque a Sociedade foi à falência).
Encontrei esta fotografia de 1927 em que se vê esse reservatório : “Reservatório de água do lado Sul da Colina da Guia”
ANUÁRIO de 1927 - Reservatório de CacilhasNesse mesmo lugar, em 1949, iniciou-se  as obras para a adaptação do reservatório em paiol (Paiol da Solidão) (3)  (estava no “vale”  por cima da Fonte da Solidão, hoje “escondida” porque está parcialmente enterrada com o alargamento da Estrada de Cacilhas e atrás das barreiras de protecção do Grande Prémio) (4)
O reservatório era fechado (na foto vê-se o terraço) e com as obras de adaptação foi cimentada constituindo o terraço do paiol, cuja entrada dava directamente para uma pequena rampa na direcção da Estrada de Cacilhas.
À esquerda da foto, a entrada  para um espaço escavada na colina onde escorria água que depois era canalizada para o reservatório. Este espaço foi readaptado para servir de armazém do paiol. Nesta foto, esta entrada não tinha ligação directa para o terraço (a passagem era feita apenas por uma tábua, do muro para a entrada). Na transformação em paiol foi necessária a destruição de parte desse muro do reservatório para dar  uma ligação mais larga, cimentada e directa à entrada. O transporte do material era difícil para este espaço pois não havia nenhuma passagem do andar superior para o inferior, apenas uma escada de madeira vertical ligava o terraço e a guarita (à direita na foto – futuro local de trabalho do paioleiro) (5) pelo que se construiu uma passagem em terra, da porta da guarita (visível, à direita na foto) para umas escadas de pedra que ainda hoje é possível observar no local (muitos degraus já desfeitos) Pela dificuldade de transporte, armazenava-se aí nesse espaço interior, o material menos usado ou que aguardava  abatimento.

MEU ÁLBUM Paiol de Solidão IAspecto actual do Paiol de Solidão. (FOTO Abril 2015)

Na foto acima, a rampa que dá acesso ao paiol com o muro do antigo reservatório recuperado. A rampa (como ela está, mais larga e alcatroada) foi feita já na década de 60 (século XX) para melhor acesso dos transportes da carga e descarga de armas, munições e explosivos (por força de lei, as empresas que lidavam com  explosivos empregues em trabalhos particulares eram obrigadas a terem esse material depositados no Paiol). À direita, à beira da estrada,  por detrás das barreiras, a Fonte da Solidão.
MEU ÁLBUM Paiol de Solidão II ABRIL 2015À direita a escada de acesso, de pedra (infelizmente mal conservada, semi-desfeita) para o “andar” superior. O portão e a  pequena guarita no topo das escadas foram colocadas depois do 25 de Abril de 1974.
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/07/anuncio-sociedade-de-abasteci-mento-de-aguas-de-macau-limitada-s-a-a-m/
(2) Já em 1919, o coronel (engenheiro) Adriano Augusto Trigo  quando assumiu a Direcção dos Serviços de Obras Públicas de Macau, traçou um plano que incluía o aproveitamento das águas fluviais e águas subterrâneas. O projecto para captação de águas fluviais, entre outros, previa a construção na Colina da Guia de um reservatório.
(3) Recordar que o anterior paiol estava na Flora junto ao Palacete da Flora – hoje Jardim da Flora,  desde 1924 até ao episódio do seu rebentamento pelas 5 horas da manha do dia 11 de Agosto de 1931, atribuída ao excesso de calor. Provocou 24 mortos e 50 feridos e destruiu completamente o Palacete da Flora.
Há indícios dum anterior paiol em Mong-Há com a data de 1887 e outro mais antigo (primitivo’?) numa informação datada de  30-03-1639: “Tendo sido reconhecida a necessidade de se construir um Paiol de pólvora e proposto para este fim o sítio de Nossa Senhora da Penha de França ou no baluarte de Sao Pedro, o Senado preferiu, porém construí-lo no monte de S. Paulo” (MOSAICO, 1951)
(4) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/decada-de-50/
(5) O primeiro paioleiro deste paiol, foi colocado em 1 de Janeiro de 1951.  O primeiro (e único) paioleiro do Paiol da Solidão foi o  Cabo Pereira, já que posteriormente se construiu outro paiol, (em meados da década de 50 do século XX) ligeiramente mais a oeste, ao nível da  Estrada de Cacilhas que tem no seu interior uma ligação interna – túnel que “perfura” a Colina da Guia – com saída no Jardim da Flora. Os dois paióis sob a designação de Paiós de Cacilhas mantiveram-se em funcionamento simultâneamente e sempre com mesmo paioleiro até à sua reforma e mesmo depois de reformado até 1973.
Paioleiro – guarda de Paiol, ou seja, é o guarda do local onde ficam armazenadas as munições e os explosivos dos militares. Em Macau também se armazenavam (por lei) os materiais das empresas civis que utilizavam explosivos para as obras.