O Corpo de Bombeiros de Macau que tinha sido organizado em 26 de Abril de 1919 (Portaria n.º 8, Boletim Oficial n.º 17) por extinção da anterior “Inspecção de Incêndios”, volta no dia 1 de Novembro de 1923, para o Governo da Província (estava desde 2 de Novembro de 1919 sob a alçada do Leal Senado) e passa a denominar-se Corpo de Salvação Pública (1)

ANUÁRIO de 1927 - Corpo de Salvação PúblicaCorpo de Salvação Pública – Estação Central em 1927 (2)

… A maioria das ruas da cidade era constituída por estreitíssimas vielas, ladeadas de velhas casas que porfiavam a sair do seu alinhamento e que decerto se desmoronariam à menor trepidação dum Thornicroft, (3) se é que fosse possível fazer circular por entre elas um monstro desses.
Nessa época, cada rua tinha de concorrer para a manutenção dum grupo de bombeiros que guardavam em suas casas uns metrozinhos de mangueira, uma agulheta e uma bomba de incêndio, que consistia em uma caixa que se movia sobre duas rodas, tendo num dos lados um rudimentar maquinismo que servia para comprimir a Água.
Quando fosse preciso fazer trabalho esse preciosos engenho ia-se buscar a água , aos baldes, nos poços ou no mar e, uma vez lançada para dentro da caixa-reservatório, o líquido extintor era comprimido pela maquinismo, que era por sua vez accionado à força dos músculos de vigorosos mocetões.
Ora, embora os jactos de água não atingissem mais que uns metros de altura, nem por isso esse maquinismo deixava de ser eficiente quando se dava qualquer incêndio, porquanto, nessa altura, ainda não existiam risca-céus, não sendo  também, portanto, necessário o uso das complicadas escadas Magyrus.
Como nem todas as ruas podiam dar-se ao luxo de possuir uma bomba, quando ocorria um incêndio os bombeiros da rua sinistrada tinham de se entreter  a atacar a conflagração com baldes de água até à chegada das bombas das outras ruas. Mesmo assim, punham às vezes tal empenho em atacar as terríveis labaredas e tal era a profusão de água que o entusiasmo dos seus esforços os levavam a lançar para cima das flamejantes áscuas (4), que era raro o incêndio capaz de resistir à sua improvisada táctica e à sua espontânea estratégia.
Nessa tempo, existia uma combinação táctica entre os bombeiros e a população da cidade. E assim, logo que fosse dado o rebate saíam todos os bombeiros dos seus alojamentos e o grupo que chegasse primeiro, através do dédalo das ruelas da velha cidade, recebia como recompensa dos seus esforços um magnífico leitão assado e dois almudes da melhor aguardente chinesa, custeados entre os moradores da rua vitimada pelo sinistro… ” (5)
(1) CAÇÃO, Armando – Unidades Militares de Macau, 1999 e SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.
(2) Em 1927, o comandante do Corpo de Salvação Pública era o tenente Gaudêncio da Conceição e o Ajudante, Leocádio Justino da Conceição.
(3) Célebre marca de veículos (camiões/camionetas ) dos bombeiros
(4) Áscua – brasa, carvão ardente
(5) GOMES, Luís Gonzaga – Os Primitivos Bombeiros de Macau in  Curiosidades de Macau Antiga. Instituto Cultural de Macau, 1996,, 2.ª edição, 184 p. ISBN -972-35-0220-8