Em 2 de Agosto de 1908, teve-se conhecimento que  os primeiros socorros pelas casas de beneficência  de Cantão aos sinistrado das cheias do Rio d´Oeste (1) não chegaram ao seu destino. Foram apresadas, em trânsito, por uma quadrilha de malfeitores chamados os «Gatunos do Rio». O afamado e terrível chefe da principal quadrilha de piratas da Província de Guangdong,(2)  por nome Lok-Lan-Cheng, ficou muito indignado com o procedimento da gatunagem! Receoso de que o roubo fosse imputado à sua gente e no intuito de dar testemunho público de que os piratas não são alheios ao infortúnio e à caridade, pois se é certo que roubam aos ricos nunca o fazem aos pobres, praticou actos de socorro de verdadeiro arrojo. Perseguiu os gatunos com a sua gente e conseguiu haver de volta grande parte dos géneros roubados, que ele próprio quis entregar aos desalojados. Apresentou-se ainda em pessoa em todas as casas dos principais lavradores de Cantão, intimandoos a reduzir o preço de arroz sob  pena de lançar fogo a todos os celeiros. A intimação foi «religiosamente acatada»” (3)
A Repartição do Expediente Sínico fez em 10 de Agosto de 1908, tardiamente, a tradução desta  notícia vinda a lume no início de Agosto, nos jornais de Cantão e Hong Kong. A notícia sobre uma catástrofe natural, desencadeou em Macau uma onde de solidariedade. Abordaremos primeiro   a notícia. O Rio d´Oeste há mais de 30 anos que não subia, como desta vez, a 40 e 45 pés (…). A fome apertou de tal forma esses desgraçados que as mães impossibilitadas de fornecer alimento aos seus filhinhos, viram-se na dura necessidade de os amarrar a taboinhas (sic)  ou baldes de madeira e de lançá-los ao rio à mercê da corrente. Estas infelizes criancinhas só por milagre poderiam salvar-se. Para se calcular o número delas, basta dizer que na cidade de Cantão – terminus do rio – apareceram mais de 30 crianças assim abandonadas à mercê da sorte! Entre estas, umas chegaram mortas e outras vivas  mas todas traziam atado ao pescoço um embrulho cujo conteúdo consistia em uma jóia de ouro ou prata e um pano do a seguinte súplica « Receba este meu filho. Se chegar vivo, adopte-o; se chegar morto, utilize o produto da jóia para o enterrar!». Casas de beneficência e particulares de Cantão cumpriram fielmente a vontade dos pais daquelas crianças, algumas das quais lograram chegar vivas depois de ter atravessado mais de 200 milhas. Também Macau  não quis «desmentir os seus créditos de cidade filantrópica» organizando um bazar para obter dinheiro que pôs à disposição dos infelizes, além de outras verbas doadas por particulares e entidades oficiais. O Hospital Kiang Wu convocou uma reunião magna, para organização do Bazar «quermesse». (4) É que, além dos bebés, havia que atender à fome dos inundados , ao abrigo dos desalojados. Logo nessa 1.ª reunião os donativos atingiram patacas $ 9 500,00. A quermesse  foi organizada pela comunidade chinesa, mas os bilhetes de entrada eram de 50 avos/pessoa, pelo que a população ali acorreu (3)

MAPA do Sul da Província de Guangdong 1950 (ANUÁRIO 50)MAPA DO MAR DA CHINA  – SUL DA PROVÍNCIA DE GUANGDONG /CANTÃO (1950)

(1) 西江 -Xi jiang (em cantonense: sai1 gong1) –  também conhecido por  Hsi Chiang, Si-Kiang, Siquião ou do Oeste.
(2) 廣東 -Guangdong / Kuangtung ou província de Cantão cuja capital é 廣州 – Guangzhou / Cantão / Kwangchow.
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4, 1997.
(4) A inauguração do Bazar a favor dos sinistrados das cheias do Rio d´Oeste, no Campo Coronel Mesquita foi a 16 de Agosto de 1908.  Presidiu à inauguração o Governador Interino, «Madame Sá» e o ajudante de Campo. O Hino Nacional foi executado pela Banda dos alunos chineses  da Escola Salesiana. O discurso inaugural foi feito por Chan-Chek-I. Na quermesse havia uma barraca de Auto China, sendo a primeira vez que em Macau se apresentaram em cena jornalistas e filhos de família abastadas, nas representações teatrais (Na China tradicional, os actores eram considerados gente de baixa categoria. (3)
Neste preciso dia em que se inaugurava em Macau a quermesse a favor dos inundados do Rio d´Oeste, o pirata Lok-Lan-Cheng apresentou-se no 1.º Hospital de Cantão, declarou o seu nome de guerra e em seguida entregou um donativo de patacas $ 10.000,00, retirando-se depois, calmamente, numa cadeirinha conduzida por oito chineses. As autoridades de Cantão só tiveram conhecimento do sucedido algumas horas depois a saída do «bom pirata» da cidade, provavelmente porque a população receosa (e também agradecida) não o denunciou. (3)
 José A. Alves Roçadas 1907NOTA: Logo à noite seguinte à tomada de posse (a 18 de Agosto de 1908) como novo Governador, José Augusto Alves Roçadas  (na foto, cerca de 1907) visitou a quermesse, com a esposa e filha. No certame havia «animatographo» que rendeu patacas $ 5 000,00 (3)