No dia 26 de Abril de 1956, encerrou-se o IV Ciclo de Conferências, promovido pelo Círculo Cultural de Macau, com uma «lição de história» subordinada ao tema “ Primeiras tentativas envidadas pelos Portugueses para o estabelecimento de comércio com a China” pelo sinólogo, escritor e historiador, Luís Gonzaga Gomes.

A Conferência foi realizada no Salão Nobre do Leal do Senado, tendo o Dr. Pedro José Lobo, Presidente do Círculo aberto a sessão em nome do Governador, Joaquim Marques Esparteiro que presidiu.

“… Na viagem de regresso a Lisboa, na derrota de Cananor para Melinde, as naus de Pedro Álvares Cabral (que chegara à índia a 13 de Setembro de 1500, após a descoberta do Brasil em 3 de Maio desse ano) encontraram, ao amanhecer de um certo dia, uma grande nau mourisca que, por navegar muito próximo dos seus navios, não conseguiu escapulir. Inquieto com a presença dos portugueses, o capitão da nau que pertencia ao sultão de Cambaia e que se encontrava carregada de ricas mercadorias e especiarias, tratou de tentar subornar Cabral com estonteadores presentes com receio que ele o atacasse. Como Cabral tivesse deixado livre a nau e a sua tripulação, sem as molestar em nada dizendo que só fazia mal à gente má e rejeitasse qualquer coisa, o capitão da nau islamita insistiu em não quere levar de volta os mimos que trouxera pelo que Cabral, cioso da sua isenção e também porque lhe conviesse aproveitar aquela ocasião para demonstrar aos mouros que os portugueses não agiam naquelas paragens como cruéis corsários mas sim como honestos mercadores, mandou-lhe entregar, em paga, cem cruzados em ouro, que o mouro, terminantemente recusou aceitar. Cabral viu-se, então obrigado a ficar, constrangidamente, com os presentes e uma rapariguinha e um rapazito chineses que o capitão mouro lhe ofereceu para os levar para a sua mulher.
Ignoramos se estes dois jovens chinesitos, talvez desapiedadamente raptados pelos mouros ou por eles adquiridos em qualquer mercado oriental de escravos, teriam ou não chegado a salvo ao reino. No caso afirmativo seriam, então, os primeiros chineses a pisar as terras da Europa Ocidental…” (1)

No caso dos dois jovens chineses oferecidos a Cabral, não terem conseguido sobreviver à longa e tormentosa viagem, está documentado que Afonso de Albuquerque, em 1512, enviou para o reino um chinês, o primeiro que viu terras de Portugal.

(1) Macau Boletim Informativo, 1956.