Conteporrânea n.º3 1925 CAPADa revista «Contemporrânea» , n.º 3 , Julho-Outubro de 1926, pp. 116-118 (1), retiro parte do artigo escrito por Camilo Pessanha em Macau no ano de 1924.

Conteporrânea - Gruta de Camões por Camilo Pessanha I“DOS templos profanos portugueses dedicados ao culto do génio é sem dúvida um dos mais venerados os modestos jardim de Macau, chamado a Gruta de Camões. Nenhum português absolutamente, nenhum estrangeiro de mediana instrução vem a Macau, mesmo de passagem, cujo primeiro cuidado não seja o de irem em romagem a êsse recinto sôbre cujo solo é tradição que poisaram os pés do poeta máximo de Portugal- um dos máximos poetas de todo o mundo e de todos os tempos – em quanto o seu génio elaborava algumas das estrofes de bronze dos Lusíadas. E a nenhum deixa de invadir, apenas transposto o vulgaríssimo portal do quintalejo suburbano, que dá acesso ao local, um sentimento dominador de religiosidade, e todos impondo silêncio, como se do lado de dentro das duas insignificantes umbreiras de granito estivesse aquela tela que existiu à entrada de cartuxa do Bussaco, onde a pintura macerada de um frade fitava imperativa, com o seu olhar imovel, os que se aproximavam, erguendo verticalmente diante da bôca o indicador da mão direita.
Busto de CamõesTem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não prêso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pode ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polémica ha-de de-certo renascer mais animada algum dia; e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa. …(…)

Conteporrânea - Gruta de Camões por Camilo Pessanha IIQuanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopeia marítima que culminou na formação do vasto império português do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península portuguesa do Mar da China ligado ao distrito chinês de Heong·Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou. Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente, nesses tempos gloriosos. Note-se que digo padrão, padrão vivo: não digo relíquia.

Conteporrânea - Gruta de Camões por Camilo Pessanha IIIHá, com efeito padrões mortos. São essas inscrições obliteradas em pedra, delidas pela 11 intempéries e de há muito esquecidas ou soterradas, que os arqueólogos vão pacientemente exumando e penivelmente decifrando, tão lamentavelmente melancolicas como as ressequidas múmias dos faraós. … (…)
Veio tôda esta. Divagação a propósito de dizer que ainda é Maocau a única terra de todo o ultramar português, em que se pode ter, até certo ponto, a ilusão de se estar em Portugal, essencial ao exercicio por portugueses da sua especial actividade imaginativa…
Para concluir contra toda a tradição e contra tõda a evidência histórica, que tenha sido escrita ou concebida em Macau uma parte considerável da vastíssima obra poética de Camões? Seria verdadeira loucura.”

Chácara do Leitão 1921Camilo Pessanha em 1921, na “Chácara do Leitão”, em Macau
(YUNG FONG Rua da Palha MACAO) (2)

Os parágrafos finais em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/06/02/macau-e-a-gruta-de-camoes-i/
(1) «Macau e a Gruta de Camões», foi publicado inicialmente no semanário “A Pátria”, em 7 de Junho de 1924.
(2) Postal da colecção «CAMILO PESSANHA no 70º aniversário da publicação do “CLEPSIDRA”». Edição do Instituto Português do Oriente, Macau, 1990.