Como é agora o tempo de Natal e do Anno Bom, abramos este capítulo com uma poesia do chistoso poeta macaense Filippe M. de Limas, publicada em 1895, no Almanach Luis de Camões, de Hong Kong “ (Ta-Ssi-Yang-Kuo – Série I-VOLS I e II p. 4).

Em 23 de dezembro

Natal já tem traz de porta (1)
Logo cai na quartafêra;
Venca (2) nôs armá presépio
E aranjá candêa cera.(3)

Nôs tem sagrada familia,
Pastor, vacca tem bastante;
E tem também três Rê mago
Montado na elephante.

Nôs tem Minino Jesús,
Sam José com Nossaiôra;
E tem Bastante pastor
Com dez ou doze pastora.

Mandá fazê unga estrado
D´altura de nosso pêto; (4)
Armá presépio de riba
Logo pôde olá bemfêto,(5)

Nôs dipois di missa-gallo,
Vamos sandê todo luz;
Chomá gente de vizinho
Cantá Minino Jesús.

Na Macau padre Manuel
Com mad dôs ou três sium-sium
Chagá festa de Natal
Canta: gorung, gorungung.(6)

Aqui Adeste fidelis
E venite e más venite;(7)
Como eu nom sábe latim
Ai senti que non tem chiste.

Padre Manuel na Macau
Fica na rua de Pala (8)
Já fazê unga presépio
Que ocupá metade sala.

Sua lapa (9) qui bonito…
De fora enchido de fula (10)
Minino Jesus na pala
No meio de vacas e mula.

Nossiôra e Sam José
Ali perto dozelado (11)
Cobri corpo de sua filo
De frio quasi gelado

A´riba de lapa unga anjo
Aguando (12) descê de ceo
Co´unga letréro escrevido
– Glória in excelsis Deo,

Tem uma estréla na ceo
Qui bonito vôs olá! (13)
E tem tres rês que, de longe,
Botá oculo, observà.

Sim, padre Manuel falá
Qui aquele são três rês-magro
Mas eu senti bem de gordo
Tudo costa bem de largo (14)

Unga rê são portuguez (15)
Otro môro tem turbante;
Outro cafre beço grosso,
Corpo inchido (16) diamante!

N´unga canto de presépio
Inchido de arve de côcô (17)
Macaco subi, descê.
Igual como jugá sôco.(18)

Rê Herode com sua tropa
Com espada, chuça e lança,
Corê como diabo solto (19)
Matá tudo criança-criança !

De tanto ancuza que tem,
Que eu agora já esquecê;
Mas tem unga crueldade
Eu de medo já tremê !!

Vôs olá p´ra tudo rua,
P´ra tudo canto e travéssa
Inchido criança macho
Tudo morto sem cabeça.

Vae tudo vanda ouvi choro (20)
Tudo mãi berrá, dá grito;
Sam José com Nossiôra
Fuzi com Jesus p´ra Egypto

Padre Manuel são capaz
Elle tem bastante gêto;
Agora não pôde olá
Presepio assim bemfêto.

                   Filipe M. de Lima

Feliz Natal I - 4 1950 IIDesenho da revista “Mosaico“, 1950

(1) Traz de porta – Já vem perto.
(2) Vem cá nos armá – Vamos armar.
(3) Candéa cêra – Velas de cera.
(4) Péto – Peito.
(5) Lógo pôde olá bemfêto – Poder-se-á ver bem.
(6) Refere-se ao cantochão, denominação aplicada à práctica monofónica de canto utilizada nas liturgias cristâs.
(7) Palavras ditas pelo sacerdote na missa do galo, quando apresenta o Menino a beijar aos fiéis.
(8) Pala – Palha.
(9) Em certos presépios, a Sagrada Família está numa gruta ou lapa, em vez da arribana (choupana ou palhoça)  em que o Rei do mundo nasceu.
(10) Fula – Flôr, flores.
(11) Dozelado – Um de cada lado.
(12) Aguando – Voando, avoando.
(13) Que bonito vôs olá! – Que bonita vista que faz.
(14) – É engraçadíssima esta quadra, em que se faz a confusão de reis magros com reis magos … de costas bem largas!
(15) De Rê portuguez – não reza a história lusitana de que houvesse um rei mago português.
(16) Inchido – echido, cheio.
(17) Arve de côco – Árvore ou palmeira de coco.
(18) Em que os macacos sobem e descem como se estivessem a jogar o soco.
(19) Diabo solto ou melhor sorto. Diz-se das pessoas que correm aos saltos, fazendo esgares e gestos desordenados.
(20) Vai tudo vanda ouvi chôro – Por todos os lados se ouve chorar.

NOTA: «Novo Almanach Luiz de Camões para o anno bissexto de 1896 illustrado com o retrato do grande épico portuguez e principe dos poetas, accompanhado daa sua biographia , por Francisco de Azpilqueta Xavier Jorge de Menezes – Typ. Hong Kong Printing Press – 1895». 1 folheto com 98 pag. e 1 retrato grosseiramente gravado de Camões. (Ta-Ssi-Yang-Kuo – Série I-VOLS I e II; nota de rodapé p. 4).
Segundo o editor J. F. Marques Pereira não sei se continuou a sua publicação porque d´esse almanch só vi o exemplar d´esse anno, que me foi obsequiosamente emprestado por um amigo”