Um conto ficcionado (uma reportagem imaginada) sobre os piratas em Macau, ” OS PIRATAS CHINESES EM MACAU E SUAS REDONDEZAS”, publicado por Luís de Linares na Revista Civilização, de 1933. (1).

“Sôbre as águas do Rio das Pérolas, a canhoneira de Macau singrava brandamente na noite, entre juncos e outras embarcações, levando-me a bordo. É perigoso viajar no vapor de carreira. Na semana passada, foi por duas vezes abordado e saqueado pelos piratas. É mais segura esta canhoneira, que não transporta mercadorias cobiçáveis, cuja ponte e cujo leme são protegidos por chapas blindadas, não falando nas metralhadoras e nas sebes de arame farpado que dividem o navio para evitar que, em caso de surpresa, os assaltantes se espalhem rapidamente por toda a coberta.

Revista Civilização Piratas Chineses IGrupo de piratas, alando um barco, para o pôr em movimento

 Levávamos já várias horas de viagem quando um oficial apareceu na tolda  e começou a fazer funcionar um potente reflector giratório. Quando a silhueta de alguma embarcação surgia na bruma, mandava orçar, para passarmos à maior distância possível de ela.
– Vira a estibordo! – gritou subitamente.
A canhoneira descreveu um arco de círculo e passou a poucos metros de uma estranha sombra que emergia da água.
– Alto !
O barco parou. Os dois reflectores iluminaram um vêlho junco desmantelado, com a proa na água e a quilha de popa voltada para o céu.
-Está a afundar-se ! – gritei.
Ouviram-se vozes de comando. As metralhadoras foram apontadas para o veleiro naufragado. O canhão girou lentamente e assomou na tôrre de proa. E ouvi o oficial destravar a pistola, enquanto murmurava:
– Se está a afundar-se de verdade, bate certo. Mas se é uma emboscada dos piratas vão saber onde elas doem… (…)

Revista Civilização Piratas Chineses IIUm junco de piratas

(…) Uma descarga cerrada, partida do junco, tombou os meus dois companheiros de viagem e um servente das metralhadoras. Então, quatro portas, dissimuladas na popa do junco abriram-se simultâneamnete, um metro acima da nossa coberta, e por elas precipitou-se um aluvião de demónios amarelos…(…)

Revista Civilização Piratas Chineses IIIA popa de um barco de piratas

(…). Dentro de pouco, o junco, transformado em pira colossal, desapareceu nas águas. Um homem saltou para aponte do leme, caindo junto de mim. Era o oficial, único sobrevivente de toda a tripulação. Vinha ferido a escorrerem sangue.
– Só tenho dois cartuchos no carregador – disse êle. – Um é para mim; o outro para você. Não caia em se entregar vivo a estes cães!.
Introduziu o cano de pistola na bôca, e disparou. Eu apoderei-me da pistola e fugi de aquêle reduto, para onde os assaltantes corriam, atraídos pela detonação…

Revista Civilização CAPA

(1) LINARES, Luís de – Os Piratas Chineses em Macau e suas Redondezas in Civilização, grande magazine mensal, n.º 56, FEVEREIRO de 1933, 104 p.

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Dr. Abílio Campos Monteiro (escritor, jornalista, médico e político português) (1876-1933) foi cofundador, juntamente com Ferreira de Castro, desta revista “Civilização – Grande Magazine Mensal” que se publicou de 1928 a 1937.