Continuação da leitura do livro e análise dos quadros de Fausto Sampaio, pintados em Macau. (1)

Fausto Sampaio Pintor do Ultramar Tancareiras

É de notar ao examinar-se o quadro «Tancareiras» que o autor atribuiu à figura da barqueira que está no primeiro plano, olhos de côr azul ou pardo-azulada, quando esta coloração pigmentar do globo ocular jamais aparece nos mongóis e mongoloides. Além disso, nota-se no rosto dessa mulher um deliquidade orbitária muito menos acentuada do que no comum da sua raça, bem como se vê muitíssimo atenuado aquêle bridado da fenda palpebral que é característico do ôlho mongol e que chega a fazer ocultar completamente as pestanas à vista alheia. Não foi, porém, nem ao longe, êrro de visão do artista. Veja-se que essa tancareira, ou era produto de mestiçagem e tinha recebido, por ascendência paterna europeia, essa modificação somática, ou, o que é menos provável, proviria de alguma daquelas populações da Mongólia do Nordeste aonde são relativamente frequentes os cruzamentos com eslavos brancos e louros e que tivesse emigrado para a China Meridional.” (2)

Notabilíssimo quadro é êste, que só por si bastaria para firmar uma reputação. A naturalidade das atitudes, dir-se-ia a, a anatomia das personagens, não esquecendo o miudinho sai-kó (3) pendurado às costas e coberto com o seu pano novo e vermelho – o me-tal (4) – que é a côr da felicidade, o impressionante das côres, o tão bem reproduzido regionalismo dos trajos, tornam esta uma das inspiradas a apreciadas deste certame” (4)

(1) Fausto Sampaio, Pintor do Ultramar Português. Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1942, 182 p. Ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fausto-sampaio/
(2) MELO; Lopo Vaz de Sampaio e – A Arte ao serviço do Império in Fausto Sampaio, Pintor do Ultramar Português, p. 29
NOTA: Lopo Vaz de Sampaio e Melo (1884-1949), filho de um notabilíssimo homem de Estado do tempo da Monarquia, com o mesmo nome, Lopo Vaz de Sampayo e Mello (1848-1892), oficial da Marinha da qual pediu a demissão, foi director do Correio da Manhã, professor catedrático da Escola Superior Colonial onde regia as cadeiras de «Colonização Portuguesa», «Administração e Legislação», «Política indígena» e «Etnologia e Etnografia». Foi vogal do Conselho do Império Colonial, onde, em 1936, foi encarregado de fazer o inquérito relativo à existência ou não de escravatura nas colónias portuguesas. Era a favor da introdução de castigos corporais nas colónias “desde que não incluam mutilações (“Política Indígena- Questões coloniaes”, 1910, p. 194)
(3) Sai-Kó (細個mandarim pinyin: xi gé; cantonense jyutping: sai3 go3) – rapazinho, garoto; pequeno moço de recados em escritórios, oficina, etc; rapazito que ajuda os empregados domésticos numa casa. Usam-se também os diminutivos saicozinho, saicozito.
BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.
(4) Deveria ser :“mé tai”.
mandarim pinyin: mie dài; cantonense jyutping: me1 daai2 – Faixa quadrada de pano com que as mulheres chinesas levam os bebés às costas.
(4) INSO. Jaime do – Quadros de Macau in Fausto Sampaio, Pintor do Ultramar Português, p. 103.