Carta escrita por Ebenezer Townsend Jr., supercargo (oficial dos navios mercantes, encarregado da carga e dos assuntos comerciais da viagem) a bordo do “Neptune” (1) na sua viagem pelo Pacifico Sul, Cantão e Penang, entre 1796-1799.

«Caro Irmão…
À 1 P.M. (24 de Outubro) ancorámos na rada de Macau numa profundidade de cinco braças e fomos a terra buscar um piloto para Cantão – a nossa primeira tarefa foi ir visitar o Governador (2) e a seguir o Comodoro dos navios ingleses na Taipa, que eram então comandados pelo Capitão Turner. Suponho que não tínhamos obrigação de ir cumprimentar este inglês, mas é costume, e eu senti satisfação ao ouvir ali um cavalheiro inglês que havia estado algum tempo na América e pensava que a casa pública de Butler em New Haven era melhor em que tinha estado e preguntou-me se já lá tinha estado – fundada em Peters, ordinariamente chamada a única casa pública…(…)
Há grande número de belos edifícios. A cidade é muralhada e muito bem fortificada. O chamado porto interior é bom com cerca de 13 pés de água, mas as fragatas ancoram na Taipa. Há agora treze navios de velas redondas e vários barcos menores no porto interior. O tufão não lhes causou prejuízos, pois o porto é como um lago. Os barcos que aqui estão carregam de cem a centenas de toneladas.
No verão é lugar de residência para os sobrecargos e empregados da East India Company, visto que nessa estação não se faz negócio em Cantão, e aqui podem viver mais economicamente e mais agradavelmente do que em Cantão.
Eu, porém, vi pouco que me agradasse. Vi poucas mulheres portuguesas nas ruas, mas elas estavam de tal forma cobertas com um véu que eu não posso dizer se eram bonitas ou feias; porém, se é verdade o que dizem, eu poderia ter examinado mais intimamente as suas feições por uma pequena compensação.
Comprámos ovos e laranjas – cem por meio dólar – e bom vinho no hotel – uma garrafa por ¾ de dólar.
Há cerca de doze igrejas (3) e uns 4.000 habitantes (4) no máximo; eles vão à igreja, mas são falhos de iniciativa. No início o estabelecimento era muito florescente; mas a riqueza, que o ergueu, foi provavelmente a causa do seu declínio; tornaram-se faustosos e enervados”

The Diary of Ebenezer Townsendhttps://archive.org/details/extractformsicdi00town

(1) The Original Diary of Ebenezer Townsend, Jr. While on Board the Supercago of the «Neptune» 1798  in TEIXEIRA, M – Macau através dos séculos , p 31.
(2) O Governador nesse ano, era D. Cristóvão Pereira de Castro (1797-1800)
(3) Sé, S. Lourenço, St.º António, S. Lázaro, S. Paulo, S. José, S. Domingos, S. Agostinho, S. Francisco, Stª. Clara, St.º Casa e N. Sr.ª da Penha.
(4) A 8-8-1777, o Bispo D. Alexandre Pedrosa Guimarães dizia que «todos os Cristãos de Macau assim velhos como moços e crianças de peito, pretos e brancos de yum e de outro sexo não chegarão a 6.000 e muito fracos» (TEIXEIRA, M. – Macau e a sua Diocese, II, p. 261); Bocage em 1789-1790 dizia que havia em Macau «cinco mil nhon´se chinas cristãos».