Em 16 de Julho de 1948 registou-se um dos primeiros sequestros (considerado o primeiro acto de pirataria na história da aviação) de um avião comercial. O hidroavião Catalina BBY 5AQ – VR -HDT – baptizado com o nome de «Miss Macao», (1) – voava de Macau para Hong Kong quando foi sequestrado, tendo o assalto corrido mal, resultando no queda do hidroavião no Delta do Rio Pérola, perto de Jiuzhou Yang (2)
A razão do assalto estaria na suspeita de que um dos passageiros era milionário e levaria consigo a bordo 3000 taeis de ouro. (3) Macau não sendo signatário às restrições Betton Woods no tráfico de ouro, tornou-se após a segunda guerra mundial um importante porto de operações entre Macau, Hong Kong e Saigão.
Os assaltantes eram quatro, que compraram no dia anterior um fato à europeia por 20 patacas cada um, tendo um deles (o chefe) sido treinado como piloto de Catalina. O plano inicial seria assumir os comandos do hidroavião e fazê-lo aterrar numa das ilhas do Delta. Terá sido o chefe dos assaltantes que ao tentar estrangular o piloto americano Dale Cramer e perante a reação do copiloto australiano Ken McDuff (bem como alguns dos passageiros), matou a tiro o piloto. Este atingido por uma bala caiu sobre o comando levando o hidroavião a cair a pique. (4)
Um dos assaltantes Huang Yu (黃裕, mandarm pinyin: Huáng Yù; cantonense jyutping: Wong4 jyu6), que fora contratado na China (era um camponês plantador de arroz da China, conhecedor da área onde voava o hidroavião) foi o único dos quatro que não tinha pistola e será talvez, por isso, o único que não tomou parte no assalto, mantendo-se sentado com o cinto de segurança e por esta razão provavelmente terá sobrevivido.
Levava 23 passageiros e 3 tripulantes.
Na década de 40 não havia legislação sobre a pirataria aérea em águas internacionais pelo que devido a um conflito entre jurisdições – acto de pirataria dum avião britânico em espaço aéreo internacional, o tribunal de Macau remeteu para Hong Kong o julgamento (o registo do avião era de Hong Kong), O Governo de Hong Kong alegou não ter jurisdição sobre o local da queda. Por isso Huang foi libertado a 11 de Junho de 1951 e deportado para a China. (5)
Como curiosidade vem mencionado em muitos artigos que a aeromoça do hidroavião era uma macaense de 21 anos chamada Delca da Costa. Mas num “post” sobre a aviação naval do blogue “Crónicas Macaenses” (6), aparece um comentário de Jorge E. Robarts (em 10-03-2004) referindo que a sua amiga Elsa Demée (do Pilar) seria a hospedeira de bordo desse dia mas foi substituída pela colega Gutierrez a pedido desta que precisava estar em Hong Kong por motivos familiares.

O Segredo do Hidroavião CAPA

A partir deste facto histórico Fernando Sobral (7) publicou recentemente em Março de 2014, o romance “O Segredo do Hodroavião” – thriller emocionante passado entre a China de Mao Tsé-Tung, a Hong Kong de Jorge VI e Macau de Salazar” (8)
Lê-se na sinopse desta obra, com chancela da Parsifal:
No dia 16 de Julho de 1948, o hidroavião Miss Macau fazia mais uma viagem entre Macau e Hong Kong. Entre os passageiros embarcados estava um grupo de chineses a bordo que haveria de tentar sequestrar a aeronave, fazendo com que este se despenhasse nas águas do mar, matando tripulação e passageiros. O único sobrevivente seria assassinado anos depois, junto à porta da cadeia, após a sua libertação. Por que razão?”.
O preço do ouro, cuja regulação definida pelo Tratado de Bretton-Woods durante a II Guerra Mundial levara ao comércio ilegal, dera origem a um frenesim na circulação deste metal precioso na zona. Mas naquele dia de Verão, o parelho da “Matco/Cathay Pacific” transportava também algo bastante desejado por muitas e influentes pessoas de Macau e da China.
Quem está por detrás da tentativa de sequestro da Miss Macau, a primeira da história da aviação? E porquê?
A partir de um facto histórico, Fernando Sobral constrói um empolgante thriller levando até ao leitor o jogo de interesses políticos em conflito numa China em guerra civil, entre os nacionalistas de Chiang Kai-shek e os comunistas de Mao Tsé-Tung e criando, ao mesmo tempo, um retrato fiel do universo de intrigas e ambições, de receios e interesses da comunidade portuguesa em Macau. Um romance histórico apaixonante!

O Segredo do Hidroavião CAPA+CONTRACAPA

(1) Abril de 1948 – Pedro Lobo e Liang Chang organizam a Companhia Limitada de Transportes Aéreos de Macau, registada em Hong Kong tendo alugado à Cathay Pacific Airways o seu primeiro avião (anfíbio, de 2 hélices) baptizado como «Miss Macau». As viagens entre Kai Tak e o Porto Exterior de Macau custavam 40 dólares de Hong Kong (simples) e 75 (ida e volta). A viagem num sentido demorava cerca de 20 minutos.”
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p. (ISBN 972-8091-11-7)
(2) Ilha de Jiuzhou九洲 (mandarim pinyin: Jiu zhou; cantonense jiutping: gau2 zau1) – ilha (hoje integrado numa das áreas do porto de Zhuhai) no estuário do Rio Pérola.
(3) Tael –(mandarim pinyin: liǎng; cantonense jyutping: loeng5), é uma medida de peso muito utilizada em Macau (na China e no Extremo Oriente). Utilizadas nas lojas de ervas medicinais chinesas, nos mercados bem como na transação do ouro e prata.
Um tael é sensivelmente 50 gramas ou 1/18 do cate ( mandarim pinyin: jin; cantonense jyutping: gan1)

1 cate (gan) = 0.60478982 kg
1 tael (loeng) = 1/16 cate

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tael
(4) HACKER, Arthur – Cathay Pacific Airways PBY Catalina amphibious aircraft Miss Macao ashore at Kai Tak airport in
http://www.pprune.org/aviation-history-nostalgia/60421-pbys-5.html
(5) http://en.wikipedia.org/wiki/Miss_Macao
(6) http://cronicasmacaenses.com/2014/02/16/aviacao-naval-em-macau-uma-visao-em-1989/
(7) Fernando Sobral, jornalista, é autor dos romances “Na Pista da Dança”, “O Navio do Ópio”, “L. Ville” e “Ela Cantava Fados”. Escreveu ainda “Os Anos Sócrates” e, em co-autoria, “Barings – A História do Banco Britânico que Salvou Portugal”, “A Teia do Poder ou Os Mais Poderosos da Economia Portuguesa”.
(8) SOBRAL, Fernando – O Segredo do Hidroavião. Edições Parsifal, 2014, 216 p., ISBN 978-989-98521-4-3