A propósito da iguaria macaense “Saransurável”, o chamado «pão de ló» macaense, publicado no opúsculo “A Cozinha Macaense” (1)

A Cozinha Macaense  SARANSURÁVEL

publico a “história” deste “bolo”, segundo Maria Margarida Gomes (2)

Sarán-Suráve

A nau atracara, há muitos dias, no cais. Longe da sua pátria, o cozinheiro de bordo queixou-se, com enfado, certa manhã, à sua cara metade que estava farto de comer, ao almoço, o “Son-Kou” – espécie de pão insípido – e que estava tentado a experimentar cozer o « pão de ló» português, mesmo com a exagerada quantidade de 16 ovos a banho-Maria, isto é, a vapor. Todos os bolos chineses são cozidos a banho-Maria; e, nesse tempo, não havia forno apropriado para assar bolos.
          Cortou uma fatia e deu-a à mulher para provar. O efeito foi instantâneo e inesperado. Ela deu uns pulinhos de satisfação paladaresca e, abraçando o marido, saltitou umas voltinhas e exclamou
          « Ai! Sarán-suráve! »
Foi uma paráfrase instintiva de sons alegres ou a poetização oriental da frase:
           «San suave!»
É realmente muito leve!
          Foi assim que ela baptizou o «pão de ló» português, chamando-lhe «Sáran-suráve».
Macaizou-se, ainda, cobrindo o bolo com coco ralado, cozido com açucar. Não contente, acrescentou uma camada de canela em pó, variando às vezes com feijão torrado e moído ou com farinha de biscoito, para saber melhor.

Acrescenta a mesma autora:
Há quem pense que este bolo tem de ser cozido a banho-Maria, não se convencendo de que daria melhor resultado, se fosse assado ao forno.”

(1) Ver anterior “post” – «A Cozinha Macaense»:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/03/08/leitura-a-cozinha-macaense-the-macanese-cooking-%E5%9C%9F%E7%94%9F%E5%BB%9A-%E8%97%9D/   
(2) GOMES, Maria Margarida – A Cozinha Macaense. Imprensa Nacional de Macau, 1984, 24 p.