No intuito de promover o interesse pelas tradições e o dialecto macaense, o Instituto Internacional de Macau e o JornalTribuna de Macau, lançaram recentemente um concurso de criatividade “CANTÁ BASTIANA” para, até ao dia 30 de Abril de 2014, encontrar novas quadras para a canção ‘Bastiana‘. Poderá ver o texto de anúncio do concurso em português e em inglês, bem como três versões musicadas desta cantilena em:
http://cronicasmacaenses.com/2014/03/03/concurso-canta-bastiana-e-escute-3-versoes-da-musica/

A letra original da canção publicitada no anúncio é:

Quin quêrê amôr, Bastiana,
Prêcisa considérá
Amôr nunca sam brinco, Bastiana,
Pêgá torná largá.

Quin quêrê pâ iô, Bastiana,
Tánto ancusa lôgo dá
Apa, múchi, côco, Bastiana
Pipis, cátupá.

Iô quêrê pâ vôs, Bastiana,
Vôs quêrê pâ ôtro;
Dêus lôgo cástigá, Bastiana,
Fazê vos sa ôlo tôrto.

Arvrê di papaia, Bastiana,
Pê já nàcê rabo,
Vêlo-velo olá rapariga, Bastiana
Boca ta còrê babo.

Ao ler estas quadras lembrei-me duma Cantilena Macaísta, do CANCIONEIRO MUSICAL CRIOULO, publicado no livro  TA-SSI-YANG-KUO, intitulada:

Parodia à Bastiana

TA-SSI-YANG-KUO Paródia à Bastiana

Para aguçar a veia poética de potenciais cultivadores da língu maquista para este concurso, dando-lhes umas «dicas» para expressões e rimas, transcrevo as primeiras sete quadras (do total de 21 quadras), com as notas explicativas, tiradas do mesmo livro. As restantes quadras serão publicadas em próximos posts.

Cathrina, minha Cathrina,
Cathrina meu de travessa (1)
Nunca bom, ficá tristi, Cathrina,
Vós lôgo ficá condessa. (2)
 
Riva de vosso porta, Cathrina,
Tres táu (3) lôgo botá,
Alo macho (4) tingili (5),  Cathrina,
Sabsana cô ocá. (6)
 
Cancôm (7) já dá fula (8), Cathrina
Lumbriga já ergui em pê
Formiga cô porçobezo, Cathrina,
Corê rua pidi comê.
 
Capam (9) de minha horta, Cathrina,
Já sabe dançá shotiz, (10)
Branquinha cô minha Nito,  (11) Cathrina,
Já sabe caçá perdiz.
 
Tudo ratazana, Cathrina,
Pidi carçam (12) vesti,
Aranha cò carapato, Cathrina
Casamento já pidi.
 
Poço já secá ago,  (13) Cathrina
Chatom (14) já non tem chá;
Bicho-nune (15) já cae aza, Cathrina,
Gato furtá levá
 
Gom-gom (16) cantá saião,  (17) Cathrina,
Pardal jugá turûm (18)
Andorinho furtá casa,  (19) Cathrina
Sapo dança landum.

………………………………………………………….continua

(1) (2) Profetiza o autor que Cathrina que mora ao meio da travessa, ainda há-de vir a ficar condessa.
Os itens (3) a (6) são mizinhas ou remédios macaistas com propriedades não só terapeuticas, mas também contra bruxedos, maus olhados, etc.
(3) Tres pau são três raízes que se reduzem a pó e se tomam como remédio contra os ataques de cólera, cólicas, etc.
(4) Alo macho é o alho vulgar que, assado e colocado sobre o umbigo das pessoas atacadas de dor de barriga, constitui santo e eficaz remédio.
(5) Tingili é o fruto, em conserva, duma espécie de leguminosa.
(6) Sabsana ou sapsana é o remédio dos três paus ou raízes em pó e misturadas conjuntamente com Oca que é casca de ostra queimada, também com propriedades extraordinárias e de muita virtude contra qualquer doença ou feitiço tenebroso.
(7) Cancóm – espécie de grelos, com mais flores do que folha, muito apreciado na cozinha chinesa e macaense.
(8) Dá fula – deu flor, floresceu.
(9) Capam – capão, galo castrado.
(10) Shotiz – célebre dança escocesa: Schottish
(11) Nito – nome de cãozinho ou cadelinha.
(12) Carçam – calções, calças curtas.
(13) Ago ou Agu – água; já secou a água do poço.
(14) Chaton – bule de chá, devidamente acondicionado num envólucro de junco enchumassado.
(15) Bicho-nune – libelinhas.
(16) Gom-gon – nome onomatopaico do bezouro.
(17) Saião ou saiâm – nos termos malaios e franceses, a palavra sayang tem o significado de regret (pena) Também tem esse significado em maquista e é assim que deve ser tomado no texto, mas em certos casos, exprime perfeitamente o sentido da palavra saudade.
(18) Jugá turum – jogo do pau (?) muito usado pelos chineses.
(19) Furta casa – o mesmo que correr os cantos da casa

NOTA DO EDITOR: “A communicação d´essa cantilena que, pelo titulo de parodia, me parece ser imitação de qualquer outra do mesmo genero de origem reinol. São vulgares no cancioneiro do reino, as cantigas, cantilenas e fados em que os animaes de todo o genero desempenham, um papel importante para tornar mais risível o sentido.”

TA-SSI-YANG-KUO – Archivos e annaes do Extremo-Oriente português 1899 -1900 Colligidos, coordenados e anotados por J. F. Marques Pereira. Volume I.