Continuação do artigo de C. J. Caldeira referente à Gruta de Camões (1) (2)

“Sobre a grande massa de granito, que forma o tecto da gruta, ha o mirante que representa a estampa que remata lindamente o bosque pyramidal, e d’onde se desfructa deliciosa vista. Releve-se-me que reproduza aqui o que já escrevi n’outra parte, tratando d’este mesmo assumpto, para dar idea das impressões que o sítio produz.
D’alli nas suaves horas da madrugada d’um bello dia, ou nos poeticos e saudosos instantes do occaso do sol, uma alma sensível e melancholica pode gozar doces extasis; ora olhando os sacros rochedos que deram abrigo ao grão Poeta, e os antigos troncos que lhe ministraram sombra; ora vendo as limpidas aguas e as ilhas verdejantes, os montes fronteiros e as varzeas graciosas, por onde triste dilatava os seus olhos; e por fim contemplando o formoso céo que lhe inspirava os carmes.

TA-SSi-YANG-KUO 1880 Gruta de CamõesA GRUTA DE CAMÕES (antes de ser propriedade do Estado) Photograv. de P. Martinho, segundo uma photographia de 188…) (3)

No murmurio das ondas, e no sussurrar do bosque; no gemer da brisa, e no canto da ave; os ouvidos d’alma parecem escutar o nome do cantor immortal! Na solidão da natureza, e no recolhimento do espirito, tudo alli de Camões diz a saudade!
A natureza e a poesia arece terem feito d’este logar o templo do grande Genio, onde é forçoso que lhe tribute poetica adoração todo aquelle que se preza de ter nascido na terra que elle tanto amou… (…)
… O logar em que foi construido o mirante seria muito melhor aproveitado para collocar a estatua de Camões, à qual serviria como de magestoso pedestal o monticulo que já descrevemos em cujo vertice está a gruta, e que parece a natureza se esmerou em preparar para esta devida homenagem ao grão Cantor das nossas glorias. Hoje, que são prósperas as circunstancias de Macau, bem se poderia isto realisar por meio de uma subscripção, appellando para o patriotismo e bizarria dos seus moradores ou aliás pelo excedente de dinheiro que ha agora nos cofres publicos d’aquella possessão.” 
                                                                                 C. J. CALDEIRA.

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/01/11/leitura-macau-e-a-gruta-de-camoes-xvi-c-j-caldeira-1857-i/
(2) CALDEIRA, C. J. – China in Archivo Pittoresco, Semanario Illustrado, 1.º Anno, Julho 1857 pp. 17-19.
Referências anteriores deste autor em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/carlos-jose-caldeira/
O texto integral deste artigo (com algumas alterações) foi publicado no livro do mesmo autor:
CALDEIRA, Carlos José – Apontamentos d´uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. Publicado em dois volumes. O tomo I é da Typ. de G. M. Martins, 1852, com 421 pag. e  o tomo II. da Typ. de Castro & Irmão, 1853, com 330 pag.
(3) Foto de Ta-Ssi-Yang-Kuo (Vol. II-Est. LIII. – Pag 534).