Parte do artigo de C. J. Caldeira (1) referente à Gruta de Camões, com o título “China”, publicado num semanário em 1857.

“O desenho que vae n’este numero representa com exactidão daguerreotypica (2) o celebrado logar conhecido em Macau por este nome, e onde, segundo as tradições locaes, o grande cantor passava solitario longas horas, provavelmente d’amargurada saudade, ou de poetica exaltação.
É de suppor que alli compozesse alguma parte, se não toda a sua epopea. A natureza e os encantos agrestes d’aquelle sitio, que ainda hoje inspiram mesmo almas vulgares, não podiam deixar de actuar fortemente sobre a imaginação do poeta, e talvez lhe inspirassem alguns dos melhores trechos dos Lusíadas. No entanto é muito para notar que nada, que a isto induza, diga Camões no seu poema, nem nas outras suas obras, e que não falle de Macau, nem d’esta gruta, cuja descripção, pelos accidentes e bellezas naturaes ,que a rodeiam, daria bellissimos quadros poeticos. E, porém, fora de duvida ter o nosso poeta residido n’aquella cidade… (…).
Gruta de Camões J. Caldeira 1857

Mas, voltando ao nosso assunpto, de que insensívelmente me afastei, pelo interesse que excita tudo que se refere a Camões, direi que a gruta d’este nome está hoje incluida na quinta ou horta, como lhe chamam em Macau, da bela residencia do cidadão Lourenço Marques, morador d`aquella cidade. Esta quinta, ou antes, vasto jardim, teria apreço mesmo nas primeiras capitaes a Europa, pelos caprichos e naturaes bellezas que encerra, e pela pericia com que a arte as realça. Contém um monticulo, que para a parte do rio ou porto interior de Macau é quasi cortado a pique, sohranceiro a povoação chineza de Patane, e para o outro lado é envolto por semicircu los de enormes penedos. Da terra vegetal, em que assentam, brota infinidade de arvores de varia as especies, sempre virentes, formando lindo e copado bosque; destacando entre ellas, por sua corpulencia» e magestade, as que chamam de pagode, a que na India denominam banian-tree, e balete nas ilhas Filippinas. Esta arvore adquire proporções gigantescas, e com suas raizes enlaça e cobre os rochedos proxi mos, vestindo-os como de uma tunica de fibras. Dos seus ramos flexíveis nascem delgadas raizes, que se debruçam ou pendem perpendicularmente, como attrahidas para o solo, onde, apenas tocam, se arreigam, e formam novos troncos ou columnatas ligadas a arvore principal.
Enormes massas de rochedos impendentes em posições caprichosas parece que só conservam o equilibrio pelos liames que sobre elles estende a formosa arvore de pagode, ameaçando perpetuamente com a sua quéda ao passeante que divaga pelos estreitos e pittorescos caminhos, que artisticamente cruzam este accidentado terreno.
No cumulo d’este monticulo, um dos pontos mais elevados da cidade, ha uma pequena planura, e n’ella a célebre gruta de Camões, formada por tres grandes penhascos. Parece que mão de gigante alli adrede os collocara para abrigar aquelle outro gibgante da intelligencia e da poesia!.
Dois dos rochedos formam como duas paralleleas, que distam entre si 135 centimetros, no prolonganiento de 322, e com a altura de 450. 0 terceiro assenta horisontalmente sobre aquelles em fórma de tecto, que a maneira d´um alpendre fica saliente para a parte oriental da gruta.
0 actual proprietario, o mencionado cavalheiro Lourenço Marques, animado de não vulgar patriotismo, tem continuado a obra dos seus antecessores, esmerando-se em aformosear este sitio, já de si tão bello, no que tem feito consideraveis despezas, reparando constantemente os frequentes estragos occasionados pelos tufões. Pena é, a meu ver, que intentasse tambem embellezar a gruta de Camões, com os dois porticos de alvenaria, que ornam as duas entradas correspondentes, fechadas por cancellas baixas de madeira; mas como para estas innovações de mau gosto não foram quebrados os rochedos, e facil fazel-as desapparecer, e restituir á gruta a sua rudeza e simplicidade priimitivas.
No centro da gruta ha um pedestal quadrilongo, de 56 por 111 centimetros de base, e de 153 de alto, e nas faces correspondentes ás duas abertura estão gravadas na pedra seis oitavas dos Lusíadas. Sobre o pedestal está o busto de Camões, moldado em greda c bronzeado por artistas chinezes, lendo-se na base:

Gruta de Camões J. Caldeira 1857 IINa architrave do portico principal estão esculpidas as scguintes lettras

Gruta de Camões J. Caldeira 1857 III

que significam ‹‹O sabio por excellencia.›› Do mesmo modo nas pilastras, de alto a baixo, se vêem os caracteres seguintes, oito em cada uma, principiando a ler-se pelo lado direito do espectador e verticalmente, segundo o systema da escripta dos chins:

Gruta de Camões J. Caldeira 1857 IVA traducção é perfeitamente litteral, e feita recentemente pelo insigne interprete Martinho Marques, morador e natural de Macau. As palavras impressas em grifo são os sons das respectivas lettras chinezas, lidas segundo a pronuncia do dialecto mandarim. As palavras entre parenthesis acrescentam-se para tornar o sentido completo, accommodando a phrase à indole das línguas europeas. Eil-a seguidamente:
«Em talento e virtudes excedeu o poeta aos demais homens, mas por inveja foi perseguido. Seus admiraveis versos grandemente floresceram, e agora levantou-se-lhe este monumento para passal-o às gerações»
É muito para notar que só passados quasi tres seculos depois da morte de Camões, é que se dedicasse este primeiro e humilde monumento á sua memoria,  lá na Asia extrema, nos ultimos confins da monarchia, e com essa inscripção cbineza, de quasi ninguem comprehendida, mesmo entre os portuguezes de Macau; podendo dizer-se que symbolisa o ingrato esquecimento dos que fallavam a mesma linguagem, eternisada na terra pelo sublime Poeta. Louvores mil, ao benemerito cidadão Lourenço Marques, que primeiro, entre tantas gerações d´ingratos, remiu para si esta feia culpa nacional…”………………………..continua…

C. J. CALDEIRA.

NOTA: destaque a ”bold” da minha autoria
(1)   CALDEIRA, C. J. – China in Archivo Pittoresco, Semanario Illustrado, 1.º Anno, Julho 1857 pp. 17-19.
Referências anteriores deste autor em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/carlos-jose-caldeira/
O texto integral deste artigo (com algumas alterações) foi publicado no livro do mesmo autor:
CALDEIRA, Carlos José – Apontamentos d´uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa. Publicado em dois volumes. O tomo I é da Typ. de G. M. Martins, 1852, com 421 pag. e  o tomo II. da Typ. de Castro & Irmão, 1853, com 330 pag.
O mesmo texto foi reproduzido no TA-SSI-YANG-KUO, coordenado pelo J. F. Marques Pereira.
(2)    O mesmo retrato (mas recolhido doutra fonte), e referências ao Comendador Lourenço Marques, encontram-se em anterior “post”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/06/09/macau-e-a-gruta-de-camoes-ii/
(3)   Comparar com outras reproduções da Gruta de Camões do século XIX:
1837: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/04/03/poesia-macau-e-a-gruta-de-camoes-ix/
1879: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/06/13/macau-e-a-gruta-de-camoes-x-a-gruta-de-patane/
1880 e 1898:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/19/macau-e-a-gruta-de-camoes-vi-wenceslau-de-moraes/