Parte do texto “A Gruta de Camões”, (1) de Wenceslau de Moraes, de Março de 1890.
O início deste texto foi publicado em anterior post (2)

“… Se alongarmos depois o passeio, embrenhando-se sempre por entre as matas sussurantes, onde reina uma meia-luz esverdeada, chegamos ao limite natural do jardim, o despenhadeiro quase a pique das rochas, em parte mascaradas pelas moitas das mimosas e pelas ramadas das trepadeiras. Alarga-se então o horizonte. Vê-se em baixo a cidade, a amálgama prodigiosa das negras casas chinas, a linha serpeada das vielas; e chega-nos confuso o som de mil pregões dos bazares, o papear e insólito dos garotos, o ruído dos tantãs e dos foguetes festivos. Vê-se o leito lodoso do porto interior, juncado de lorchas de comércio oferecendo à brisa as suas hgrandes velas de esteira; centenas de pequenos tancás navegam em todas as direcções; amarram, junto da barra, as canhoneiras de guerra; e à direita, do lado oposto, destaca-se viçosa uma ilhota, a ilha Verde, onde agora fumaça a alta chaminé duma fábrica de tijolos. Em frente, na outra margem, contorna-se a lombada ressequida da ilha de Tew-lien-shan ou da Lapa, com as suas pobres povoações de pescadores, e umas manchas esverdeadas em baixo, indicando as várzeas em cultivo. Para lá da Porta do Cerco, limite do nosso domínio colonial, acastelam-se ao longe, num esbatimento de tons azulados, as montanhas da grande ilha de Heang-shan, ou de Macau, da qual o pequenino Macau português não é mais do que uma língua de rocha, apenas perceptível nas cartas geográficas.

Gruta de Camões antes 1940Aspecto do recinto da Gruta antes da restauração efectuada em 1940

Quantas vezes, sobre esta eminência da Gruta de Camões, ele, o poeta expratiado e perseguido pelas intrigas e prepotências dos mandões, não alongaria a vista desolada, assistindo talvez ao jubiloso embarque dos forasteiros para a nau de viagem, prestes a largar para Lisboa! Estas pedras devem ter sido molhadas pelas suas lágrimas de fel; devem ter assistido, mudas e frias, aos seus longos desesperos de homem ardente, ferido no seu grande coração por tantas ingratidões e por tantpos revezes! No sussurar deste arvoredo majestosos, na humidade lacrimosa que sessuda destas rochas,l nos descantes amorosos destas aves, no volutear destes insectos. Há alguma coisa, efectivamente, que lembra a efervescente agonia, intervalada de fugazes esperanças, do pobre procurador dos defuntos e ausentes, ou coisa que o valha, que se chamou Camões…

Gruta de Camões depois  1940Após a restauração de 1940

 (1)   MORAES, Wenceslau de – A Gruta de Camões. Macau, Imprensa Nacional, 1940, 17 p.
(2)   https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/19/macau-e-a-gruta-de-camoes-vi-wenceslau-de-moraes/
 NOTA: sobre outros textos de Wenceslau de Moraes, neste blogue, ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/wenceslau-de-moraes/