E se a cidade china está em festa, o aspecto do Bazar torna-se numa verdadeira phantasia de magica onde as ornamentações, a vida e as iluminações são impossíveis de aqui descrever.
De todas essas festas, a mais curiosa para nós é sem dúvida a festa do Dragão.
É um cortejo, uma espécie de procissão nocturna onde figuram grande variedade de peixes e animaes muito bem feitos, transparentes e iluminados por dentro à mistura com varios andores e musicas chinas infernaes.
Nalguns andores veem-se palacios em miniatura, duma arquitetura complicada donde a luz sahe a jorros; noutros, creanças pequeninas, ricamente vestidas e penteadas, que vão imoveis no meio de espelhos, panos e flôres; e tudo finalmente acompanhado de muitas lanternas esquesitas, extravagantes, pendendo de bambús.
E às vezes, ouvi dizer, no fim da festa encontram-se algumas creancinhas enteiriçadas, mortas, no alto das varas onde vão amarradas.
Mas eis que se ouve num rithmo cadenciado e grave, o som cavo duma especie de tambor: anuncia o Dragão!
Terrível, ondulando, descobre-se finalmente na cauda do cortejo, o horripilante bicho; vem todo iluminado, e a serpentear, querendo engulir o sol que lhe corre na dianteira.
Das escamas de seda transparente, côa-se a luz dos candieiros que leva dentro, e às vezes ainda atraz dele seguem dois leões como guardas do monstruoso animal. Levou uma hora ou mais, o cortejo a passar, e ficâmos a pensar se tudo aquilo que mal se póde descrever, não passaria dum sonho, duma das visões mais fantasticas das mil e uma noites orientaes.” (1)

Jaime do Inso

(1) Parte do texto “Macau, Jóia do Oriente” de Jayme do Inso, publicado no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, n.º 7, Julho de 1913.

Sobre Jayme do Inso e esse texto ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jaime-do-inso/