“Os primeiros objectos que sucessivamente se offerecem à curiosidade do navegante, quando demanda o porto de Macáu, são uma bateria portuguesa(que, sobranceia aos rochedos e ao mar, domina toda a cidade) e o convento da Guia, notavel por suas altas muralhas, e copadas arvores, as unicas destes sítios. Por cima da Guia, no cume da rocha, se eleva outro mosteiro; e pela encosta da collina vem descendo as casas de Macau, à maneira de degraus, até o mar, que lambe os alicerces das derradeiras. Occupa a nossa colonia um retalho de solo ingrato, e tão limitado, que no espaço de duas horas pôde ser visto, situado na ponta oriental da ilha de Negao-Men, a qual tem dez leguas de comprimento, e é a maior do archipelago, em cujo golfo desagua o Tigre, rio da Cantão…(…)

Bateria e Quartel S. Francisco 1910Quartel e Bateria de S. Francisco na década de 10 (século XX)

Quatro fortalezas defendem Macáu, n´uma dellas, que tem uma cisterna, quatro fontes d´agoa nativa, e casamatas, e quarteis para 1.000 homens, existiam ainda em 1829, epocha a que se refere esta descripção, quarenta peças d´artilheria. A outra mais pequena, e provida de trinta peças, tem também uma fonte inexhaurivel, porém não pôde accomodar senão 300 soldados. Estas duas fortificações; colocadas nas maiores alturas da ilha, dominam todo o territorio, e apesar disso não podem resistir á má vontade, e á astucia dos mandarins; porque se hoje trovejasse a artilheria, começariam ámanhã a sentir os Macaistas os rigores da fome.

Com ser tão acanhado o territorio da colonia, não deixa de conter, além da cathedral e do acastellado convento da Guia, residencia do bispo, e dos doze cónegos seus vigarios, umas dez igrejas ou conventos de religiosos d´ambos os sexos, assim como tres hospitaes civis ou militares.
Ao descer da cidade alta para as praias avistam-se de tempos a tempos, nos sítios mais ermos, as latadas de flores, e os alvejantes tumulos dos cemiterios chins.” (1)

                             continua …

(1)   Artigo não assinado em “O Panorama”, 1837