No tufão de 23 de Agosto de 1927, um dos mais violentos e sobretudo de maior duração que tem sofrido esta colónia, veio abrigar-se no porto exterior, onde amarrou com os seus dois ferros, o vapor chinês «Wing Woo», de 538 toneladas e de carreira de Kuong-Chau-Van.(1) Este vapor, apezar de velho e com carga de suínos vivos em gaiolas, como usam os chineses, aguentou-se debaixo do violentísssimo tufão sem avaria alguma, tendo apenas garrado um pouco.
            Nessa ocasião, encontraram-se a canhoneira «Pátria», e a lancha-canhoneira «Macau», amarradas a boias junto da Ilha Verde. A «Macau», tendo rebentado o elo da boia, esteve em grande risco de se avariar de encontro ao perré da margem.

                                  Jaime do Inso MACAU 1929 PÁTRIACanhoneira “ PÁTRIA(2)

 A canhoneira «Pátria», passou sem novidade aquele tufão memoravel, que durou cêrca de 36 horas, tendo rajadas de 190 Km à hora, que arrancou arvores seculares, e em que as aguas subiram 2,78 m., acima do praiamar daquele dia, ou sejam 5,28 m., acima do zero hidrográfico, causando inundações, algumas mortes, naufrágios e muitos anos de toda a ordem.
            O pequeno vapor «Pak-Tao» da fiscalização das alfândegas chinesas, entrou pela terra dentro e foi encalhar num arrosal ao norte da Ilha Verde.
            Os prejuízos causados por este tufão foram avaliados em $ 25.000, tendo sido a população marítima a que, como quasi sempre, mais sofreu.” (3)

Um dos mais violentos tufões que atingiu Macau veio pôr à prova o abrigo seguro que o novo Porto Exterior passou a representar. O cruzador «República» galgou os molhes indo lutar com as vagas, para defronte do Tanque do Mainato, correndo sério de se despedaçar de encontro às pedras ali existentes, chegando na luta com o mar a estar distanciado de terra apenas uns cem metros.” (4)

(1)   Kuong-Chau-Van era uma colónia francesa e existia uma carreira marítima regular que durava cerca de 30 horas. O comércio com esta colónia era importante pois daí vinha a maior parte da importação de suínos.
(2)    Esta foto documenta a chegada da Canhoneira «PÁTRIA» a Hong Kong, conduzindo o Governador de Macau, Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (2.º mandato, de 8-12-1926 a 2-01-1931) em visita oficial, em 20 de Setembro de 1927. Beatriz Basto da Silva na sua “Cronologia” (4) aponta para o início da visita oficial a 27 de Setembro de 1927.
(3)    INSO, Jaime do – Macau. Escola Tipográfica do Orfanato de Macau, 1929, 152 p.
(4)   SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1997, 454 p., ISBN-972-8091-11-7.