Estamos no pagode (1) mais antigo de Macau, dizem-nos, se bem que a maioria das opiniões que temos ouvido reserve tal antiguidade para o da Barra.(2)
O pagode de Macau-Seac (Pedra de Macau) (3) ou “Tin-Hau-Seng-Mou-Miu” (Templo de “Nossa Senhora Rainha do Céu”) (4)  fica situado numa ponta escarpada e outrora sobranceira ao mar que hoje está substituída pelos aterros a nordeste do porto novo.
Situação, na verdade, privilegiada, donde se disfruta um dos muitos variados e lindos panoramas de Macau, numa minúscula ponta rochosa coroada por  frondosa “arvore do pagode”  e onde se abre, cavada na pedra, uma espécie de capela.
Muito limpa, pintada de fresco e a cores, a lâmpada acesa e suspensa em frente do altar, dá-nos a impressão, e entrada, que chegamos a um recinto da fé cristã.
Mas o exotismo das figuras e caracteres chineses esculpidos em alto relevo na rocha, so utensílios do culto, o cheiro perturbante do sandalo que arde e se evola, qual narcotico enjoativo e dôce, como interrogação ameaçadora na antecamara do misterio, tudo isto depressa nos convence da falta de santidade crista do lugar.
Mas, áparte estas rapidas impressôes que por nós  perpassam como uma intuição distante, é alegre a capelinha pintada a côres garridas, muito aceada, o que é digno de nota e, num pequeno santuário, aberto ao fundo e todo renovado, vê-se a imagem ali venerada, a deusa ” Tin Hau” ou “Rainha do Céu“.

Templo de Macau Siac 1929O Pagode de Macau-Seac – 1929

            A deusa, dizem-nos, protege especialmente contra os tufões e todos os anos se lhe faz uma festa em Março.
Este pagode, dantes muito procurado pela gente maritima, hoje é frequentado quasi só pelo elemento feminino, especialmente pela tankareiras, pobres mulheres que no rio labutam a sus miseria, vivendo nos tankárs.
Por fora do pagode, um gracioso balcão  de pedra cerca o pequeno templo que á saída tem microscopicos e toscos altares, como os chineses usam por toda a parte.
Peixes alegoricos, “peixes de céu”, encimam o telhado que a sombra protectora da arvore cobre, como protectora á deusa para os chineses de Macau.
O china sacristão, sorri-nos, sorri constantemente às nossas inquirições sem lhes atinar o fim: nos ramos altos, a passarada chilrea cantando a gloria do dia e deixamos o precioso morro, como que reduzido hoje a uma ilhota no meio dos aterros, depois de lhe cortarem mais estrada à volta.
O camartelo destruidor do progresso está ali, mesmo ao pé, nas oficinas dos holandeses, perturbando o ambiente com inoportunos sons metálicos.(5)
Oh, o progresso, a civilização!

(1) O termo “PAGODE” é o mais correcto para designar os templos chineses embora correntemente (e mesmo a nível oficial) se empregue o termo “Templo”
PAGODE: espécie de templo pagão, entre alguns povos da Ásia. (Dicionário de Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo, Vol II)
Na China,   os pagodes chamam-se miu (mandarim pinyin:  Miào; cantonense jyutping: Miu6)
(2) Os vários pavilhões do Templo de A-Má (媽閣廟 – pinyin: Māgé Miào; jyutping: Maa1 Gok3 Miu6) foram construídos em diferentes épocas, sendo que a sua configuração actual data de 1828. O Pavilhão da Benevolência julga- -se pertencer à estrutura original, com data de 1488. O Pavilhão de Orações, também conhecido por “Primeiro Palácio da Montanha Sagrada”, foi construído em 1605 e reconstruído em 1629, conforme indicam inscrições em pedra aí encontradas. A data da construção do Pavilhão de Guanyin é desconhecida, mas uma inscrição encontrada numa placa de madeira, na zona de entrada, regista a data da restauração, realizada no ano de 1828. O Pavilhão Budista de Zhengjiao Chanlin foi restaurado nesse mesmo ano.
http://www.macauheritage.net/pt/HeritageInfo/HeritageContent.aspx?t=M&hid=51
(3) Má Kau Seak (馬交石mandarim pinyin: ma jiao dàn; cantonense jyutping: maa5 gaau1 sek6) significa «Rochedo do Cavalo no Coito»  porque essa pedra que existia nessa zona (foi destruída com as obras do porto de Macau tinha a forma de dois cavalos a cobrir-se uma ao outro (5). Permanece na Toponímia de Macau uma rua denominada “Rua de Ma Kau Seak”
(4) TÍN HAU SENG MOU MIU  – 天后圣母廟 (mandarim pinyin: tian hòu shèng mú miào; cantonense jytping: tin1 hau6 sing3 mou5 miu6 )
O “Pagode da Santa Mãe, Rainha do Céu”, fica na Rua dos Pescadores, que começa na antiga Avenida do Dr. Oliveira Salazar, entre o reservatório de águas da Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau e a Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado, e termina na Estrada de D. Maria II, ao lado do prédio n.8. Outrora, esta rua contornava, pelo lado sul, o pagode Tín Hau Ku Miu (天后古廟) antigo Pagode da Rainha do Céu (6),  vulgarmente conhecido por pagode de Ma Kau Seak. O mar vinha bater quase no sopé da colina do pagode, deixando apenas um estreito carreiro de 40 centímetros para passagem de peões. Em frente dessa colina, existia duas outras que foram arrasadas há cerca de 60 anos, transformando-se esse local num chão de hortas e casebres chineses. (7)
Obras porto de Macau (1923)

http://www.prof2000.pt/users/avcultur/Postais2/Macau/006_Macau.jpg

(5) Trata-se dos estaleiros da companhia “The Netherland Harbour Work & C.º Amsterdão“, que desde 1923 desenvolvia trabalhos de aterro do Porto Exterior, empreitada da primeira fase das obras do Porto Artificial de Macau.
12-10-1922 – Foi assinado o contrato definitivo da empreitada da primeira fase das obraas do porto artificial de Macau, entre o representante do governo da província, o Almirante Hugo de Lacerda, Director das Obras dos Portos , e o Engenheiro Vam Exter, representante da companhia adjudicatária The Netherland Harbour Work & C.º Amsterdão” (GOMES, Luís  G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.)
(6) TIn Hau Ku Miu, antigo Pagode para diferenciar-se do outro Pagode, situado n mesma zona de Ma Kau Seak – O Kun Yam
(7)  TEIXEIRA, Padre Manuel  – Pagodes de Macau. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1982, 203 p. + |3|

NOTA: outras referências a Jaime do Inso em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jaime-do-inso/