Manuel Silva MendesReproduzo aqui outro trecho (1) sobre a personalidade do Manuel da Silva Mendes:

“Quando dissertava sobre qualquer assunto, especialmente da sua paixão, ninguém o interrompesse, porque não conseguia alhear-se do assunto em que estava interessado. E foi assim que, num dia em que meu irmão Chico e eu o tínhamos ido visitar, e se falou de pintura, a propósito de um quadro de um pintor  célebre que tinha na sala, que era um verdadeiro museu, faz rodar a sua cadeira, e para ali nos conduziu, continuando a sua prelecção em frente desse magnífico quadro.
Acontece, porém, que, a certa altura, entra o criado com um cartão numa salva de prata, e entregou-lho. O Dr. Silva Mendes lê o cartão e diz ao criado:
– Leva lá acima, por ser este cartão, de certeza, para o sr. capitão. Eu não conheço.
O capitão era o genro, casado com sua filha Manuela (2), que conhecemos desde pequenina, que ali também viviam. Volta o criado e diz que o cartão era para o sr. doutor. Novamente interrompido, lê novamente o cartão e diz
– Se eu não o conheço!.
Durante  todo este tempo, o portador do cartão aproximou-se até à porta da sala, e nós que o vimos dissemos: Olhe doutor, está ali à porta. O Dr. Silva Mendes olhou, e disse:
– O que é?.
Aproximando-se e apresentando-se, muito fino e muito distinto, declarando a sua identidade, respondeu:
–  Sou o comandante Murinello, cheguei ontem a Macau no navio de guerra e trago pra V. Ex.ª cumprimentos do médico Dr…..
E, como pela recepção que lhe havia sido feita, se sentiu absolutamente deslocado já não atinando como o nome do amigo que lhe tinha pedido para visitar o Dr. Silva Mendes. E então nós é que lhe  lembrámos de que teria sido o Dr. Salgueiro, que havia estado em missão num navio de guerra da Armada e dissemos:
–  Dr. Salgueiro!
de que o comandante Murinello, retorquiu
– Exactamente o Dr. Salgueiro, que envia os cumprimentos.
– Está bem, está bem,  diz o Dr. Silva Mendes.
– Estão entregues.
Voltando para nós, continuou a sua prelecção; «
– Como eu ia dizendo, este pintor …..
E então, nessa altura, o comandante  Murinello, muito vexado, deu as boas tardes e saiu. Neste momento apareceu a senhora  D. Helena que tinha assistido a esta cena por entre a porta que dava para  sala de jantar e disse:
–  Ó Manel…Ó Manel! Parece impossível! Então tu recebes dessa forma este oficial que teve a gentileza de aqui vir-te fazer uma visita, e nem sequer o mandas sentar, falando com ele!
– Olha, ele disse que vinha trazer cumprimentos do Dr. Salgueiro; e disse que estavam entregues. Então não está bem?
Nós então dissemos:
– Desculpe doutor, mas não está bem. Trata-se de um oficial superior da Armada que teve a gentileza de vir aqui trazer-lhe os cumprimentos de um amigo.
O Dr. Silva Mendes reconsiderou e viu que tinha andado mal!……”

(1) RÊGO, José de Carvalho e – Figuras d´Outros Tempos. Instituto Cultural de Macau, 1994, 408 p. +  |2|, ISBN-972-35-0144-9
(2) Maria Helena Manuela Domke da Silva Mendes nasceu em Macau (S. Lourenço) a 06-10-1903 e faleceu em Lisboa a 29-03-1993. Casou em Macau (Sé) a 19-11-1922 com João Carlos Guedes Quinhones de Portugal da Silveira. Tenente em Macau (na altura desta “história” já era capitão) e reformado em general. No posto de brigadeiro exerceu as funções de Comandante Militar de Macau, acumulando as funções de Encarregado de Governo, quando o Governador Marques Esparteiro regressou definitivamente à Metrópole.
FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume III. Fundação Oriente/Instituto Cultural de Macau, 1996, 1085 p.  ISBN -972-9440-62-X (FO)

Mais informações sobre Manuel da Silva Mendes em meus anteriores “posts”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/manuel-da-silva-mendes/