Excerto de uma excelente “aguarela de Macau” das “Cenas de rua” da Professora Ana Maria Amaro (1)

” ………………Naquela noite cálida saímos precisamente para a  zona norte de Mong Há. Ultrapassámos o pequeno bairro europeu Albano de Oliveira, pequena jóia que o capital já destruiu e procurámos a frescura do arvoredo na “Montanha Russa”…(…) (2)
A noite era de Lua Cheia. Os trilhos, aqui e além, estavam manchadas pela prata derramada pelo luar, rendilhada pela folhagem desgrenhada, como se fora o cabelo de quem não se penteia há muito tempo.
De súbito, ouvimos cantar. Era uma voz feminina, timbrada e aguda, como a das cantoras de ópera chinesa, que entoava uma melodia estranha sem acompanhamento instrumental. As árvores, a frescura, a Lua Cheia, davam ao ambiente uma grande sedução, à qual a melodia talvez não fosse estranha.
Continuámos a subir. Talvez faltasse pouco para a meia-noite. Não sei, já, que horas seriam. Sei que era já tarde. De repente, numa curva do caminho por onde avançávamos, afastando com as mãos a folhagem rebelde, avistámos o cume do Caracol. No rebordo do murete pintado de branco, estava sentada, de costas, uma mulher. Vestida de branco, o cabelo solto derramado pelos ombros. Imóvel, cantava.
Meu marido queria continuar a subir. mas eu, confesso, perante aquela visão toda branca, cujos cabelos pretos pareciam brancos, também, sob o luar, tive medo. Medo não sei de quê. Talvez houvesse ladrões e a mulher constituísse uma armadilha… Não quis avançar. Vamos para casa! Insisti. Acabámos por retroceder. Seria uma mulher louca?…(…)
Mais tarde , quando comecei a entender a a linguagem viva de Macau, aprendi muitas história de Kwâi e senti o medo na voz de quem as contava. A semelhança entre o que descreviam e o que eu vira na Montanha Rudda era tal, que contei o episódio a uma senhora filha -da-terra.
– Vós nunca crê? Çã Kwâi. Vós já olá Kwâi di “Monti di Caracol”. Çã justo Kwâi di mulé china di barco-di-flor que ali enforcá…..”

Barco-di-flor – Prostíbulo
Filha-da-terra – Macaense luso-asiática
Kwâi – Alma penada
Monti-di-Caracol – antigo nome dado à “Montanha Russa”, devido ao murete branco em forma de caracol que guarnecia o seu topo

(1) AMARO, Ana Maria – Aguarelas de Macau (1960-1970). Edição: CTMCDP/Fundação de Macau. 1998, 133p. ISBN: 972-97391-7-X
(2) Ver post anterior :”POSTAL ANTIGO – MONTANHA RUSSA” em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/02/25/postal-antigo-macau-do-seculo-xix-x-montanha-russa/