“Falecimento do professor José Baptista de Miranda e Lima, que nascera em Macau em 10 de Novembro de 1782. Foi filho de José Santos Baptista e Lima, natural da villa de Alpedriz, e da sua mulher D. Anna Pereira de Miranda, nascida em Macau – Nunca saiu d´esta cidade, e o seu nome é justamente havido por uma das glórias d´ella” (1)

José Baptista Miranda e Lima foi um poeta macaense (1782-1848) que compunha em português e em patuá num estilo marcado pela literatura neoclássica. Foi professor Régio de Gramática Portuguesa e Latina do Real Colégio de S. José (2) e Benemérito da instrução da Cidade. Autor dos poemas «Philomena Invicta», «Eustáquio Magnânimo», «Desengano», «Alectorea»  ou «Poema das Gallinhas» e outras produções” 
Segundo João Reis (3): “Se não foi o primeiro, tornou-se, seguramente o mais importante poeta macaense, não só pela temática substantiva dos seus trabalhos, como pela qualidade literária de uma escrita que se distinguia tanto pela fluência de um estilo incisivo, e não raro brilhante, como pela sua formação académica, da qual o léxico erudito e versátil não constitui único apanágio

Alectorea ou Poema das Galinhas (4)
(Reprodução das 5 primeiras estâncias)

CANTO PRIMEIRO
I
A Mantuana lyra harmoniosa,
Que ainda soa a prol da Agricultura,
Entro agora a pulsar, querida Esposa,
Sentado junto a ti nesta espessura:
E vou cantar-te o gallo e o povo alado
Sobre o qual elle impera deslevado

II
Mas ainda que eu, à sombra de loureiros
Bebendo da Beotica Hippocrene,
Em vez d´esta que d´entre estes pinheiros
Da rocha fiz brotar lynfa perenne,
Com os seus doces haustos me embriagara,
A ponto que o seu Pegaso cantara

III
Cantasse o grypho, monstro fabulado,
Águia-leão com cauda de serpente,
Por guarda dos thesouros celebrado
Dos frios Seythas contra extranha gente,
Alada fera, mais sanguinolenta
Do que a Lybica yiena truculenta.

IV
Certo ao Rei das serpentes venenosas,
Que mata e morre, dizem, de quebranto,
Não darião suas asas fabulosas
Lugar entre os objectos d´este canto;
Embora filho o finjão ser do gallo,
Qual de Medusa, o aligero cavalo.

V
Dos numes vãos a sordida manada
A prol do canto meu invoco agora?
Servil imitação! Que podem? Nada,
Vénus, Dryades, Baccho, Pan, e Flora.
Invoco sim da paz o bafo ameno,
Que os versos nascem de ânimo sereno. (5)

Ver outro poema deste autor, em patuá em “POÉMA- DIÁLOGO ENTRE DOIS PACATOS NA RUA DIREITA NA NOITE DE 13 DE MAIO”
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-baptista-de-miranda-e-lima/

(1) PEREIRA, António Feliciano Marques – Ephemerides Commemorativas da História de Macau.
(2) Foi suspenso do lugar por suspeita de ser miguelista e quando depois de alguns anos foi reintegrado, os desgostos já tinham minado a sua saúde, e morreu pouco depois.
(3) REIS, João C. – Trovas Macaenses. Mar-Oceano Editora, Macau, 1992, 485 p. + |9 |
(4) “Alectorea” é uma palavra derivada das palavras gregas Alector e Alectoris, que significam galo e galinha. Este poema consta de 4 cantos, tendo 233 estâncias e 14 folhas de anotações.
(5) TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX. Macau, 1942, 659 p.