” Os escultores chineses procuravam realizar o ideal que em vão tentam expressar os mais hábeis escultores da Europa, empregando todo o seu talento em comunicar, por meio de cinzel, como que um sopro de vida à matéria. Porém, nesta luta eram sempre vencidos, e se houve um escultor que tivesse  conseguido fazer a estátua… esta deu-lhe por resposta o silêncio. Mas os escultores chineses sabem muito bem que uma estátua, por mais formosa e perfeita, não será capaz de falar, sem que primeiramente se lhe comunique o dom da fala. Por isso, mal acabado o trabalho nos seus ídolos, a primeira coisa que fazem era abrir-lhes os sentidos. É uma operação tão eficaz como simples. Diante do ídolo acabado de fazer coloca-se uma mesinha com dois pequenos púcaros com vinho, se este fôr um ídolo que goste de beber, claro. Nem todos os ídolos gostam de beber e possuem este vício. Se é um Buda por exemplo, é necessário dar-lhe de beber chá, à semelhança do que se faz com o ídolo da Fome a quem se dá arroz. Feita esta preparação, diante dele, mata-se uma galinha, a não ser que ídolo pertença à classe dos herbívoros, porque neste caso não se mata a galinha, que é substituída por uma sopa de vegetais, fruta e legumes.
            O sangue da ave (no primeiro caso) espalha-se sobre a mesinha e a face do ídolo e, feito isto, o artista acende um rolo de papel começando seguidamente a traçar com ele alguns círculos mágicos à volta dos olhos do ídolo enquanto  que vai dizendo

“Abram-se os teus olhos, nariz, boca e ouvidos”

Finda a abertura dos sentidos, esta então o ídolo capaz de ter uma conversa com o seu autor”

Parte do artigo “Ídolos Chineses” de Leonel Barros.