O pirata inglês, William Fenton, cúmplice do assassinato do tenente José António Pereira de Miranda, da lorcha Adamastor que em Julho do ano anterior(1), cruzara os mares da costa oriental chinesa, em serviço do Governo Português, sob o comando do 2.º tenente Vicente B. Barrunche (2) , tendo sido preso por algumas somas chinas que ele intentara roubar, foi conduzido a Hong Kong mas, contra toda a expectativa, o tribunal dessa colónia inglesa absolveu-o” (3)

Chinnery Praia Grande com Fortim S. Pedro

Praia Grande com o Fortim de S. Pedro à direita de George Chinnery (viveu em Macau de 1825 a 1852)

 (1) Esta notícia enquadra-se nos vários episódios de repressão da pirataria nos mares da China, este ocorrido a 30 de Junho de 1851, e descrito por vários autores. (4)
Esta versão foi retirada de Montalto de Jesus (5):
“…Quando a corveta D. João I voltou a Macau, depois de um cruzeiro da Ningpo, onde devia descobrir e impedir os abusos que o governo de Hong Kong alegava estarem a ser cometidos pelas lorchas portuguesas, o governador Cardoso (6) despachou de imediato a lorcha Adamastor (7). Na baía de Wanchow, deparou-se ao Adamastor uma frota de juncos de aspecto suspeito, entre os quais figurava uma lorcha arvorando a bandeira inglesa. Um pequeno grupo comandado pelo ten. Miranda abordou-a e revistou-a, encontrando potes de mau cheiro e outros apetrechos de pirataria. O patrão Fenton, detido, alegou que o verdadeiro patrão era um jovem china, cuja prisão encontrou forte resistência. Durante a briga, Miranda foi atirado pela borda fora com uma espada a trespassar-lhe o peito. O grupo de busca, com alguns feridos, teve de abandonar os prisioneiros e retirar-se. O Adamastor abriu então fogo. Apesar de uma feroz perseguição a lorcha de Fenton escapou…. (…)
Fenton, posteriormente capturado pelos chineses, foi julgado em Hong Kong em 1852 como cúmplice  o assassínio do ten. Miranda, mas saiu absolvido não obstante provas que – como o China Mail justificadamente observou – teriam bastado para condenar um china. De Macau veio então a azeda pergunta sobre se o peso da evidência dependia da nacionalidade do criminoso. Julgado de novo, Fenton foi sentenciado a três anos de trabalhos forçados, apenas por acompanhar piratas…(…)”
(2) Vicente Ferrer Barruncho, foi 2.º Tenente, em Macau, ao comando da lorcha Adamastor (entre 1850-1852) e Governador de Benguela, no período de 1854-1859.
(3) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(4) Um dos relatos encontra-se no:
The Chinese Repository,Volume XV. Elibron Classics series, 2006 Adamant Media Corporation, ISBN 1-4212-7780-8 (facsimile of the edition published in 1851, Canton Journal of Occurrences, 1851)
“July 8th. The captain of the Portuguese armed lorcha Adamastor, killed on the East coast by the crew of a piratical boat commanded by a foreigner”
(5) JESUS, C. A. Montalto de – Macau Histórico. Livros do Oriente, 1990, 352 p. ISBN 972-9418-01-2
(6) O Conselheiro Francisco António Gonçalves Cardoso, governou Macau pouco tempo pois tomou posse do seu cargo, em 3 de Fevereiro de 1851 e em 19 de Novembro do mesmo ano passava as rédeas da província ao Conselheiro Isidoro Francisco Guimarães (sobre este governador, ver anterior post:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/isidoro-guimaraes/
(7) 16 de Junho de 1851 – Partiu de Macau para Shanghai a lorcha portuguesa Adamastor, armada em guerra e comandada pelo 2.º Tenente Vicente Ferreira Barruncho, sendo o primeiro navio português que, em serviço de Estado, aportou àquelas paragens
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 1995, 467 p., ISBN 972-8091-10-9

NOTA: O termo lorcha designa uma embarcação cujo casco obedece a um traçado europeu e cujo leme e aparelho vélico são de concepção oriental, combinando assim várias características que lhe davam rapidez e facilidade de manobra.
A tonelagem destes navios era bastante variável, podendo ir desde 30 a 50 toneladas. Normalmente construídas em madeira de cânfora e teca, as lorchas possuíam dois ou três mastros e estavam armadas com inúmeras peças de calibres diferentes.
No séc.XIX as lorchas eram utilizadas quer no transporte de carga quer no serviço de vigilância e defesa contra os piratas. Para este fim as lorchas foram armadas com peças de artilharia e utilizadas, em particular pelos portugueses em Macau (em meados do séc.XIX existiam no porto de Macau mais de 60 lorchas) como embarcações de combate à pirataria no Mar da China. Algumas destas acções são conhecidas, com descrições da época, bem como os seus nomes: Adamastor, Leão Terrível, Amazona, Tritão. No auge da luta contra a pirataria, as lorchas de Macau (então sob controlo português), tinham uma tripulação mista composta habitualmente por terço de portugueses e o restante de orientais, com predomínio de chineses. A tripulação rondava os 30 homens.
A pouco e pouco, por diversos motivos, as lorchas de Macau foram desaparecendo, sendo substituídas por embarcações a vapor, que transportavam mais rapidamente as mercadorias ao longo do litoral da China. Apesar da sua construção não ter sido feita apenas em Macau, pois havia lorchas contruídas em Bangkok, Ningpo e Singapura, estas embarcações desapareceram completamente das águas do Sul da China nas primeiras décadas do século XX.
Informações recolhidas de:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lorcha_(embarca%C3%A7%C3%A3o
http://www.ancruzeiros.pt/ancv-macau.html