O Bicho do Vinho é o caso de um homem gordo e beberrão. Bebia tanto Su Lin, que, mau grado as terras e os bens, a fortuna ia-se-lhe dissipando e estava em vias de ficar podre. Veio então ter com ele, contratado decerto pelos familiares, um padre budista: «Você anda doente, Su Lin» », «Mas eu não me queixo  de nada!»
Pois ainda, e o que lhe causa a doença é o bicho do vinho que se instalou em si.
O quê? Alarmado, o bêbado cai de joelhos diante do padre e implora-lhe que o livre dessa peste.
A cura, todavia, não metia poções, nem qualquer outro tratamento, apenas que Su se deitasse de costas, mãos e pés atados, um jarro de vinho à cabeceira.
Assim, e à medida que a sede lhe cresce e o aroma do vinho o inebria, o ébrio excita-se, para a seguir lhe subir um impressão à garganta  e lhe saltar da boca um bicharoco, como um sapinho, que imediatamente mergulha no jarro. Aliviado, Su agradece ao padre e insiste em recompensá-lo materialmente.
«Não tem nada  a agradecer. Levo é esse sapo, a essência do vinho, basta mexê-lo em água, e ali temos o mortal licor».
Água, portanto, o vinho, água empeçonhada, o bicho lá de dentro a envenenar as entranhas de quem a bebe. Fazendo, finalmente, à vista de Su, a demonstração do que afirmara, o padre afasta-se sem olhar para trás. Quanto a Su Lin, esse de futuro, sóbrio.”

BRAGA, Maria Ondina – Do Livro do Chá às Lendas do Vinho in NAM VAN, n.9, 1985, p. 21. Edição do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau
Anterior post sobre esta autora em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-ondina-braga/