Continuação de HISTÓRIA DE PIRATAS (I) e (II), o “jornalista”  prossegue a sua narrativa  sobre a façanha dos soldados portugueses contra os piratas em Coloane (1910).
“Primeiro houve um pequeno tiroteio entre um destacamento de soldados portuguezes e os quatrocentos piratas instalados na ilha. Doze homens batiam-se contra a legião, sendo obrigados a retirar debaixo de fogo. Mas já a «Macau» (1)  subia pelo rio com reforços; as canhoneiras chinezas da fiscalização chegavam para verem operar os portuguezes contra esse bando entrencheirado na Coloane negra, eriçada de rochas, surgindo como uma fortaleza no meio das aguas azues. (2) Zombavam na ilha ante a pequenez do barco, buscavam alcançal-o a tiro, quando uma primeira granada estoirou no meo d´elles. Detraz dos parapeitos faziam fogo mas as granadas sucediam-se e os piratas debandavam. Os chinezes desesperados diziam que elles matariam os reféns, que torceriam os pescoços aos pequenos estudantes na grande colera da sua primeira fuga. Cahira a noite; uma linda noite oriental recamada de estrellas, cheia de perfumes, das hervas seccas.
                       
LEGENDA DAS FOTOS: 1 – A cosinha do bivaque
                                                 2 –  Uma das canhoneiras chinezas
                                                  3 – Os cinco primeiros piratas presos
 
A companhia de polícia, em passadas cautelosas, desembarcou em Coloane, de longe, os piratas espionavam. Não se trocava um tiro. Ao romper da manhã chegaram as tropas e de repente os piratas entrincheirados nas casas abriram uma terrivel fuzilaria. Já havia dois portuguezes perigosamente feridos. A resistência accentuava-se. O tempo em que se prendera , quasi sem esforço, na ilha de Taipa o pirata raptor de donzellas ia longe. A artilharia falaria. Ordenava-se os rebeldes que se rendessem: à gente pacífica que recolhesse à fortaleza. Ninguém obedeceu. A população estava dominada por quatrocentos piratas. Então a Macau começou a bombardear a villa. Lá em cima aos urros soltando pragas e disparando a mais terrível fuzilaria, os homens resistiam sempre áquelle barco pequeno que a deixail-os em paz obrigaria a família dos raptados a pagar a quantia exigida. A  artilharia  ralhava sempre; as balas succediam-se; as granadas explodiam nas casas e, dentro em pouco, o fogo do inimigo afrouxava mas Coloane era uma ruína. Chegára entretanto a canhoneira Patria. (3) Os piratas tinham enterrado os seus mortos, carregado com os seus feridos e fugido durante a noite. Era necessário ainda correr a ilha; expulsar os bandidos das suas tocas como feras dos fojos, (4) bater Coloane em todas as direcções, montear os piratas e arrancar-lhes as presas…
LEGENDA DAS FOTOS: 1 – Depois do bombardeamento de Coloane: os escombros
                                                 2 –  Um dos rapazes, que esteve\ em poder dos piratas, em tratamento dos ferimentos no hospital de Macau
                                                3 e 4 – No hospital de Macau: algumas das creanças salvas dos piratas.

Artigo e fotos não assinados das páginas 333 e 334, Illustração Portugueza (edição semanal do jornal O SÉCULO) , n.º 238, Lisboa, 12 de Setembro de 1910, pp. 329-334.

NOTA: “Em 1910, existia, em Coloane, apenas um forte, com uma diminuta guarnição composta de um sargento metropolitano e quinze soldados, dos quais cinco estavam isoladamente destacados em Ká-Hó, uma aldeiazita afastada cerca de oito quilómetros. Não é de admirar que num a ilha de tão grande extensão e profundamente acidentada – a área de Coloane é de três vezes maior que a de Macau – fosse possível medrar, sem ser molestado, tão grande número de piratas, tanto mais que ela era considerada quase deserta, sendo absolutamente impossível à exígua guarnição, além do serviço de vigilância do forte, exercer qualquer outra actividade…(…) …. A população chinesa num total de cerca de 2 000 almas .. (…)… A  deligência militar do comando do Tenente Albino Ribas da Silva, foi reforçada com 45 praças de Infantaria do comando do Tenente Aguiar, mas face ao mortificante fogo cruzado, entendeu-se ser mais prudente efectuar-se uma retirada, recolhendo as duas pequenas forças à Taipa, até à chegada de reforços.. “ (5)
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/09/historia-de-piratas-i-ilhas-de-piratas/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/21/historia-de-piratas-ii-ilhas-de-piratas/
(1)  Lancha-canhoneira «Macau» sob o comando do 1.º Tenente Joaquim Anselmo de Mata e Oliveira (que veria a ser governador de Macau embora por pouco tempo, Março a Outubro de 1931), e composta por artilheiros com uma peça japonesa de montanha. A preparação do ataque foi no dia 14 de Julho, tendo sido bombardeados toda a frente marítima da povoação, com Hotchiss semi-automáticas.(5)
(2) De certeza que seria uma visão poética do narrador já que as águas envolventes a Macau, são da cor lamacenta.
(3) Canhoneira «Pátria», sob o comando do capitão-tenente Salazar Mosozo.
(4) Fojo – armadilha usada para capturar lobos nos tempos antigos.
(5) GOMES, Luís Gonzaga – Páginas da História de Macau. Instituto Internacional de Macau, 2010, 358 p.,  ISBN 978-99937-45-38-9