Os Chineses acreditam que as almas mal sepultadas transformam-se em espíritos maus, demónios, vampiros, que vagueiam por toda a parte em grande número. A esta almas penadas que atormentam o mundo dos vivos é atribuída a expressão Kuai (diabo). (1)

Segundo a superstição chinesa, esta maldição recai nos mortos que foram sepultados sem uma única cerimónia fúnebre presidida por bonzos ou enterrados num local com mau Fong-Sôi. Diz-se que as almas destes defuntos regressam à casa onde residem os seus familiares, geralmente no sétimo dia após a morte.

Os Kuais tornam-se muito perigosos ao cair da noite, porque na escuridão o poder de Yin,  a que estão associados, é reforçado. Assim, o período da noite é aproveitado pelos diabos para tentar arrancar as almas dos vivos ou para espalhar doenças, provocar sustos, acidentes, etc…(…)

Conta-se que uma povoação chinesa próxima de Macau foi, em tempos, assombrada por um kuai muito especial. O estranho episódio envolveu uma família rural, de apelido Chan, proprietária de um vasto terreno de cultivo. O seu grande desejo era ter um filho para assegurar a linhagem, mas as várias tentativas nesse sentido não deram resultados. De tanto pensar que não ia ter descendência para tomar a conta do terreno, o chefe da família quase enlouquece.

Numa noite de muto frio e enquanto dormia no seu quarto, o senhor Chan ouviu bater à porta. Ao abrir deparou-se com um idoso que lhe pediu abrigo até ao dia seguinte. O pedido foi logo aceite pelo dono da casa que, entretanto, regressou ao seu quarto. No entanto, a meio da noite, voltou a ouvir ruídos e decidiu espreitar pelo buraco da fechadura. Reparou então que o ancião a quem dera guarida estava a retirar da sua sacola três figuras de louça – um homem, uma charneca e um boi. seguidamente, o velho encheu a boca com água e borrifou as três figuras durante alguns minutos.

Na manhã seguinte, o hóspede despediu-se de Chan, agradecendo a sua hospitalidade. Cheio de curiosidade, o anfitrião entrou no quarto onde o homem tonha pernoitado e notou que no chão junto à cama cresciam arbustos, que tinham sido cultivados pelos três bonecos de louça. Sem demora Chan pegou nas três imagens e foi colocá-las no campo. Meses depois, nascia no local grande plantação de arroz e vários legumes.

Os receios terminaram então, para aquela família que fora afinal visitada por um kuai, virtuoso e com raro bom fundo”  (2)

(1) pinyin: gui; cantonense jytping: gwai2 – tem vários significados: espírito do morto, fantasma, diabo
(2) BARROS, Leonel – Templos, Lendas e Rituais-Macau. Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), 2003, 93 p.