“Neste dia que era Domingo, se recebeo Nicolão Feumes com Antónia Corrêa, filha de Pedro Corrêa da Veiga na Caza do mesmo Noivo, o qual já era viuvo de Marcellina de Abreu que falleceo aos 3 de Junho deste mesmo anno. Este cazamento foi feito em Caza do Noivo por estar este intrevado na cama havia cinco annos. Cazou por contrato de arras (1), e por ser cazamento tão disforme me alerguei mais do costumado, porquanto o noivo já passava de settenta annos quando a Noiva tinha apenas quinze, mas a muita riquesa suprio não só a falta de saúde, mas também disfarços e muita velice (2)

O anónimo que compilou os registos encontrados nos arquivos do Leal Senado num códice Colecção de vários factos acontecidos nesta mui nobre Cidade de Macao pelo decurso dos annos” anotou à margem: “não entendo”
 
Beatriz Basto da Silva acrescenta ” Pior, ou mais estranho, é o casamento entre noivos mortos (ou um deles falecido), praticado entre os chineses. O(s) morto(s) representado(s) nas cerimónias nupciais por um boneco(s) de papel  é (são) queimados(s) no final. O fumo o(s) fará chegar aos céus. A cinza, com acompanhamento dos convidados, é depois depositada junto da(s) sepultura(s). É uma cerimónia muito alegre” (3)
 
O Nicolau Feumes (4) faleceu no dia 2 de Maio de 1737 e o mesmo anónimo compilou o seguinte:
2-05-1737 – Falleceo neste dia Nicolão Feumes, e no outro dia foi enterrado em S.m Francisco na sepultura da sua primeira mulher Marcelina de Abreo que tinha fallecido em 3 de Junho de 1731 cujo enterro se fes com grande pompa e acompanhamento sendo Provedor da Misericórdia o Gov.or Cosme Damião Pereira Pinto – Falleceo depois de 80 annos, de intrevado na cama tendo vivido com esta segunda mulher cinco annos e sette meses que viuva cazou-se depois com António José da Costa que os Jesuitas mandarão-no buscar, ficou a dita Viuva com mt.º Cabedal e poucos annos que teria vinte, o que tudo era necessário para achar hum sugeito para casar. Ella ficou por herdeira universal de quan to estava em Caza, tanto que as deposições da alma deixou elle defunto Feumes que se fisessem depois da chegada do seu navio St.º António, e do cabedal que nelle tinha, mas como succede quasi sempre o seros enganados elle o experimentou (5) pois que o Navio se perdeo no mar da China escapando sòmente a gente que com o tempo se aproveitou da lancha e do Escaler, indo aportar em Sanchuan, e vindo a esta Cidade por Cantão. Desta sorte ficou a Viuva com tudo e a Alma do dito defunto sem nada – quem sabe se não precizava”

(1) Contrato de arras ou sinal é um contrato privado donde as partes estabelecem a reserva de compra e venda de bens, imóveis entregando-se por parte de um dos contratantes, de coisa ou quantia que significa a firmeza da obrigação contraída ou garantia da obrigação pactuada.
               http://pt.wikipedia.org/wiki/Arras_(direito)
(2) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado. Instituto Cultural de Macau, 1987, 78 p.
(3) SILVA, Beatriz Basto da  – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5)
(4) “Nicolau Fiúmes era proprietário do navio St.º António e ainda do S. José e Boas Novas. Foi procurador do Senado de 1717 a 1720. No seu testamento, pedia aos seus testamenteiros e à Santa casa que cobrassem várias quantias de vários devedores, devendo esmolar-se os pobres na Quaresma com os lucros; o dinheiro doutra dívida seria para a Santa casa. Ao Cabido deixava mil taeis, sendo uma parte para pagar o coro e outra para missas por sua alma”
SILVA, Beatriz Basto da  – Cronologia da História de Macau Século XVIII, Volume 2. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 216 p. (ISBN 972-8091-09-5).
(5) O mesmo autor anotou na margem: “boa maneira depois de morto
NOTA: sobre a tradição do “casamento entre cadáveres” ver notícia de 2011 na TVI24:
               http://www.tvi24.iol.pt/acredite-se-quiser/casamento-mortos-tvi24-cadaveres-china-casamento-cadaveres/1287596-4088.html