Continuação do anterior post (1)
“Alguns aventuram-se nas ruas de Macau; entram no fantan e jogam; penetram nas casas de prazer onde come o fane (2) e bebem o chá e se a polícia adrega saber que está ali um pirata então arranja- se uma verdadeira série de artimanhas para se pôr a salvo. Já sahiu; abonam-se-lhe as qualidades ou n´um rompante elle foge deixando nas mãos da auctoridade o seu rabicho…postiço. Macau é o paraízo dos piratas que se abrigam quasi sempre em Coloane ou na Taipa onde ha annos foi preso o mais terrível de todos elles. O vice-rei de Cantão tinha medo d´esse homem extranho que raptava as mais ricas donzelas da sua província e ousadamente as levava para as ter como refens. O Ho Nam (3)viu presas as suas mais formosas filhas, as lindas chinezinhas de pés minusculos, olhos em amendoa e sobrancelhas traçadas a nankin: e todo o Kuang Tung (4)chorava de magua por esse raptor de donzelas jamais ser apanhado e que exigia sempre quantias fabulosas pelas suas captivas.

LEGENDA DAS FOTOS:
1 – Os piratas prisioneiros no quartel da polícia
2 – Uma mulher pirata
3 – A povoação de Lai-chi-van onde estavam acoutados os piratas
4 – Trecho da estrada do porto á villa
5 – Estragos do bombardeamento na ilha de Coloane

Corria já bem forte a lenda: o pirata era quasi um semi-deus. Um dia soube.se que estava na Taipa; um pelotão de marinheiros portuguezes foi dar caça a esse terrivel bandido, que tanto incommodava o mandarim vice-rei de Cantão, e, após um tiroteio violento, trouxe ferido n´um calcanhar esse Achilles da raça amarella para a fortaleza do Monte.
Chorava noite e dia o famoso pirata raptor das mais lindas virgens de Ho-Nan e dizia no meio dos seus prantos que jamais fizera mal aos portuguezes que o iam enviar para essa China terrivel, onde seria decepada a sua cabeça”

LEGENDA DAS FOTOS:
1 – Um posto de observação
2 – Outro aspecto da villa bombardeada
3 – Grupo de captivos pelos piratas que as tropas portuguezas libertaram

É sempre assim; os piratas preferem os seus compatriotas como succedeu agora n´essa triste aldeia de Tong ang, no districto de Sanneg, dónde roubaram da escola dezasseis creanças que levaram captivas para Coloane. Do fundo do rochedo, onde as tinham guardado, exigiam trinta e cinco mil patacas. Os paes das creanças choravam; o commerciante de Hong Kong, fundador da escola, desolava-os; todos pediam providencias ás auctoridades portuguezas que, como sempre, marcando muito bem a sua suberania no território, foram caçar os raptores …..”
…continua…..

Artigo e fotos não assinados das páginas 331 e 332 , Ilustração Portuguesa (edição semanal do jornal O SECULO), n.º 238, Lisboa, 12 de Setembro de 1910, pp. 329 – 334.

Segundo Luís Gonzaga Gomes (5), terá sido no dia 5 de Maio de 1910 que “ousados piratas chineses incursionaram as aldeias de Tong Hang e Pac Seac, do distrito de San Neng, em Seak Kei, e raptaram 18 crianças, das quais 17 eram alunos, sendo o último um moço de cozinha, duma escola, exigindo $ 35,000, quantia bastante elevada para a época.” Três chineses de Hong Kong, um dos quais era avô duma das crianças raptadas e outros dois, progenitores de duas das crianças, solicitaram a ajuda do advogado Constâncio José da Silva  (6) no dia 11 de Julho. O advogado fez uma “bem fundamentada exposição” ao Governador da Província (Eduardo Augusto Marques) relatando os factos juntando à sua exposição as três cartas dos chefes dos piratas em que exigiam o resgaste.
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/09/historia-de-piratas-i-ilhas-de-piratas/
(2) mandarin pinyin: fàn; cantonense jyutping: faan6 – arroz cozinhado, refeição.
(3) Aldeia/Vila da província de Guangdong/Cantão
(4) 廣東 mandarin pinyin: guang dong; cantonense jyutping: gwong2 dung2 –  província de Guangdong/Cantão
(5)  GOMES, Luís Gonzaga – Páginas da História de Macau. Instituto Internacional de Macau, 2010, 358 p., ISBN: 978-99937-45-38-9 
(6) Constâncio José da Silva era advogado, editor, director e proprietário do hebdomadário “A Verdade“, cuja redação, administração e tipografia estavam instaladas, no rés-do-chão do prédio n.º 17 da Rua da Praia Grande, onde ele residia com a sua família e onde tinha também o seu escritório de advogado.