“…Mas prosigamos, que a via dolorosa das nossas relações  com o Império do meio tem ainda outros marcos milliarios a attestarem o inqualificável desleixo e o abastardamento da passada energia dos governos portuguezes.
               Mais tarde um outro governador de Macau, Izidoro Guimarães, tambem official superior da marinha, conseguiu negociar um tratado com a China, em que era reconhecida a nacionalidade portugueza de Macau. N´um dos artigos dizia-se expressamente: Macau antigamente (jadis) na província de Cantão.
               Dois annos depois, ao fazer-se a troca dos exemplares do tratado para a sua ratificação, o novo governador de Macau e ministro penipotenciario de Portugal, o coronel de engenharia José Maria Coelho do Amaral passou por novo desaire.
               Salvo erro, as ratificações trocavam-se em Pekim; era secretário da  missão o fallecido publicista Marques Pereira, a quem já me referi, e de memoria cito o que a tal respeito se encontra na sua obra.
               Ao confrontarem-se as copias, notou Coelho do Amaral que no documento assignado pelo imperador da China faltava, na versão franceza authenticada pelos sinologos a palavra jadis.
               Reclamou immediata e energicamente, e após os rodeios, as hesitações, as condolencias suaves, em que a diplomacia celeste é mestra, o plenipotenciario china acabou por declarar que Macau, não podia ser considerado portuguez.
               Coelho do Amaral, erguendo-se arrebatadamente, exclamou indignado:
               – Pois se não é portuguez, vão lá conquista-lo!
               E abandonou o pavilhão em que se achavam.” (1)
 
(1) D´AVILA, Arthur  Lobo – MACAU. Revista Serões, n.º 60, Junho, 1916, pp.458-464

Artur Eugénio Lobo d´Ávila (Lisboa 1855-Lisboa 1945) (ou Arthur Lobo d’Ávila, como assinava) é filho de José Maria Lobo d´Ávila (1817-1889) que foi governador de Macau e ministro plenipotenciário na China de 7 de Dezembro de 1874 a 30 de Dezembro de 1876,  tendo acompanhado o pai  em Macau. Regressando a Portugal, matriculou-se no curso superior de Letras, sendo classificado com distinção nas cadeiras de história, literatura e filosofia. Trabalhou como primeiro escriturário da Caixa Económica Portuguesa, aposentando-se em Maio de 1896. Foi romancista, ensaísta e dramaturgo. Ocupou cargos diplomáticos até 1877.
Foi um intenso colaborador em diversos periódicos.  A sua actividade como dramaturgo e romancista intensificou-se na primeira década do século XX. Obras:
1898 – A Descoberta e Conquista da Índia pelos Portugueses
1902 – O Reinado Venturoso
1902 – Os Caramurús
1904 – Os Amores do Príncipe Perfeito (inicialmente saiu em folhetins no Diário de Noticias em 1901 e 1902
1911  – As Loucuras de D. João V, publicado originalmente em folhetins no Diário de Notícias no início de 1920 com o título «O Rei Magnífico»
1926 – A Verdadeira Paixão de Bocage, em parceria com Fernando Mendes
Esta biografia foi compilada dos apontamentos  de
http://pedroalmeidavieira.com/?p/785/1089//A/1670/
Sobre o valor literário de Lobo d´Àvila , sugiro leitura de “Arthur Eugénio Lobo de Ávila ou o romance ao serviço da história” por José Adriano de Freitas Carvalho (Univ. do Porto) em
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6793.pdf