Foto retirada de “MACAU”,  suplemento do Diário de Notícias, 1981

É pois que Macau, não só pelas suas condições climáticas mas também como mais remoto padrão da acção portuguesa na Ásia , é o palmo de terra mais próximo  para essa evocação se fazer, natural é que, á semelhança do que sucedia com os mais célebres santuários pagãos, situado cada um dêles em terra ilustrada por algum episódio da vida da divindade a que era dedicado, seja em Macau o santuário nacional – pan-lusitano – consagrado ao génio do poeta, e que a Macau a biografia dêste particularmente se refira.
               É a Gruta de Camões, com o seu cenário irremedàvelmente mesquinho – mas susceptível, a-pesar disso, de correcção em muitos dos seus defeitos -, êsse lugar sôbre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguem, há-de ser verdade intuítiva, superior  a tôdas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte o seu poema imortal, e que o local predilecto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então êrma, sôbre o pôrto interior, junto das penhas com aparência de «dólmen» em cujo vão foi colocado há anos o seu busto, de proporções reduzidas, fundido em bronze”
Macau, Junho de 1924
Camilo Pessanha (1)
(1) PESSANHA, Camilo – China (estudos e traduções). Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1944, 131 p.