QUEIRÓZ, Eça de – O Mandarim. Livraria Lello & Irmão – Editores (proprietários da Livraria Chardon), sem data, 156 p. , 19,7 cm x 13 cm (1)
Ficção de Eça de Queirós, que no “O Mandarim” resolve um problema de escrúpulos de um português tentado pelo demónio com a invocação da irrelevância estatística da morte de um obscuro mandarim. Longe dos olhos, longe do coração !
Embora seja das obras “menos conhecidas” de Eça de Queirós (conhecendo o enredo duma novela feita pela televisão, de que não gostei) (2), comprei num mercado de rua esta obra e ao lê-lo, fiquei surpreendido com a leitura: personagens “cómicas”, tom satírico, crítica social e um final moralista:

Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim” (p. 156).

Esta edição (1), tem um prefácio de Eça de Queiroz, em francês  “A propos du mandarim – lettre qui aurait du être une préface“, carta escrita ao “Monsieur le rédacteur de la REVUE UNIVERSELLE, datada “Lisbonne, 2 août 1884“. Esta carta serviu posteriormente de prefácio à publicação francesa da novela. Nessa carta, é o próprio Eça que refere ” …obra bem modesta e que se afasta consideravelmente da corrente moderna da nossa literatura, que se tornou, nestes últimos anos, analista e experimental“. Esta novela fantasista/fantástica (3), foi na época acusado de “afastar-se da estética realista em favor da pura fantasia” (4)

Eça de Queirós (1845-1900) (5) (nesta foto com uma cabaia de mandarim – dragão, que foi oferecida pelo Conde de Arnoso), um dos mais importantes escritores portugueses, conhecido mais pelos romances O Primo Basílio,  A Relíquia, Os Maias., A Ilustre Casa de Ramires, O Mistério da Estrada de Sintra, O Crime do Padre Amaro, escreveu O Mandarim em 1880 (na última página do livro tem a indicação “Angers – Junho de 1880“)  (na altura Eça de Queirós era cônsul em Bristol).
Foi publicada inicialmente em folhetim, no “Diário de Portugal”, entre 7 e 18 de Julho de 1880, depois publicado em livro no mesmo ano. (6)

O Mandarim – Resumo (7)
“O narrador desta novela é Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino. Mora em Lisboa, na pensão de D. Augusta, na Travessa da Conceição. Leva uma vida monótona e medíocre de um pobre funcionário público que suspira por uma ventura amorosa, por um bom jantar, num bom hotel, mas que tem pouco dinheiro.
Teodoro não acredita no Diabo nem em Deus, mas é supersticioso e reza a N. Sr.ª das Dores.
Um dia descobre, numa Feira da Ladra, um livro com a lenda do Mandarim, segundo a qual um simples toque de campainha, a uma certa hora, mataria o Mandarim e faria dele herdeiro dos seus milhões. O Diabo aconselha-o a tocar a campainha. Tocará a campainha e será rico.
Começa então, uma vida de luxúria e dissipação. As mulheres são o seu fraco, logo é traído por Cândida, que o troca por um Alferes. Logo se aborrece permanecendo em si o sentimento de culpa do Mandarim que assassinara.
Viaja pela Europa e Oriente. Depois, decide partir para a China, pensando em compensar a deserdada família do falecido Mandarim. Tudo corre mal. Tenta em vão fugir dos remorsos.
Regressado a Lisboa tem visões com o Mandarim. Acaba por pedir ao Diabo que ressuscite o Mandarim e o livre da fortuna. Teodoro, deixa a sua fortuna ao Diabo, em testamento. Volta à sua vida de aborrecimento e saciedade, considerando finalmente, que “só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos”.

Resumindo, recomendo a leitura da  novela (para quem a não conheça)

Publicações com o mesmo título, até 1946, referenciadas na bases de dados PORBASE (8) e em (9):
O mandarim – Porto: Chardon, 1900, 183 p + 2, 19 cm.
O mandarim – Porto: Chardon, 1907, 5.ª ed.com pref. do autor, 183 p. + 1 il., 19 cm
O mandarim – Porto: Chardon de Lello & Irmão, 1916, 6.ª ed com pref do autor, 175 p.: il; 19 cm.
O mandarim / Eça de Queiroz ; il. Rachel Roque Gameiro. – Porto: Livraria Chardron, de Lello & Irmão, 1927 – 123 p.: il. ; 22 cm
A cidade e as serras/O mandarim – Porto: Lello & Irmão, 1946, 1 V.; 25
(1) NOTA: O livro possivelmente é de 1945 e embora não conste a edição, informação recolhida da Infopédia, sabe-se que a partir da quinta edição, de 1907, o texto “faz-se acompanhar do prefácio que Eça de Queirós projectara, ” A propos du Mandarim”, texto que reveste de importância pelo seu carácter doutrinário, onde Eça aponta o idealismo como « a tendência mais natural, mais espontânea do espírito português»
http://www.infopedia.pt/$o-mandarim
(2) O Mandarim, série TV, 1990, prod. Radiotelevisão Portuguesa (RTP), com Vitor Norte, Pedro Barão, Virgílio Castelo, Antónia Assunção, Fernando Luís, Natalina José.
(3) Embora descreva a viagem à China, da leitura da vida do escritor, não consta que tenha estado na China
(4) http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_mandarim
(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/E%C3%A7a_de_Queir%C3%B3
(6) http://www.infopedia.pt/$o-mandarim
(7) http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/eca_queiroz/mandarim.html
(8) http://porbase.bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=13V08352347JP.14990&profile=porbase&source=~!bnp&view=subscriptionsummary&uri=full=3100024~!514084~!19&ri=1&aspect=subtab11&menu=search&ipp=20&spp=20&staffonly=&term=O+MANDARIM&index=.GW&uindex=&aspect=subtab11&menu=search&ri=1#focus
(9) http://memoriaafrica.ua.pt/searchRecords/tabid/166/language/ptPT/Default.aspx?q=AU%20queiroz,%20eca%20de