Ofereceram-me e estou a lê-lo (1), uma história por dia (às vezes, duas ou três!) seguindo a indicação do autor na “Introdução”:
“A ideia é que o leitor tome uma delas por dia, como remédio para a alegria de viver. mas ao contrário do que se passa com os medicamentos que se vendem nas farmácias, estes permitem que se esforce a dose à vontade sem que daí advenha qualquer dano físico ou moral. pelo contrário”
Até agora (vou na SEMANA 4) encontro três histórias com ligação a Macau. A primeira nos “Factos & Episódios” sobre “O Governador decapitado” (João Ferreira do Amaral que abordarei em futuro(s) post ); a segunda ” O dragão e a formiga“, sobre os acontecimentos de “1,2 e 3” e o terceiro, a mais interessante (e mais desconhecida dos macaenses) de “Amores, Traições & Infidelidades”  intitulada ” A judia polaca de Paiva Araújo“.
“Era um dia triste do inverno de 1872, ali na margem do Sena…(…) … vindo a deparar com o amigo estendido na cama e de rosto desfeito por um tiro disparado á queima-roupa. Tinha-se suicidado. Os outros compreenderam. A «culpada» era la Paiva.”
Quem era Albino Francisco de Paiva Araújo ? (2)
Nascera em Macau, 48 anos antes, filho de um negociante rico e de uma bela mestiça chamada Mariana que, ao enviuvar, decidira estabelecer-se no Porto, onde ficou conhecida por A Macaense”
Camilo Castelo Branco que conheceu Albino Paiva Araújo, sobre ele refere:(3)
Paiva Araújo nascera em Macau e era filho único de um negociante rico, ali falecido por 1842. Quando o pai morreu, Paiva Araújo estava em Paris num colégio. A viúva veio para a Europa, e para residir escolheu o Porto, onde não conhecia alguém. Mandou edificar uma casa perto da alameda da Aguardente, mobilou-a com muito gosto e selecta riqueza de baixelas de ouro e prata, jarrões japoneses e porcelanas antigas. Fechou-se com o seu misterioso luxo de fada, sozinha, quasi desconhecida de nome e de pessoa. Chamavam-lhe a Macaense. O seu nome era D. Mariana de Paiva Araújo. Sabia-se apenas que era viúva, muito rica e tinha um filho a educar em França. A casa arquitectada pelo risco burguês, trivial no Porto, era de azulejos amarelos com muitas janelinhas de estores brancos, sempre descidos. Tem um jardim com vasto portal gradeado para a rua, tufado de bosquetes de arvores exóticas e miniaturas de montanhas que punham na alma saudades das florestas do Bussaco e Senhor do Monte. Paiva Araújo não frequentou curso algum nem adquiriu noções vulgares em algum ramo de ciência. Aos dezoito anos veio para a companhia da mãe. Sobejava-lhe riqueza á mãe extremosa que dispensasse o seu filho único dos fastios de uma formatura inútil.
Por 1845 apareceu Paiva Araújo no Porto curveteando garbosamente o seu cavalo árabe por aquelas sonoras calçadas. Era um galhardo rapaz trigueiro, alto, com um buço preto encaracolado nas guias, elegante, sem as farfalhices coloridas da toilette dos casquilhos seus coevos. Tinha poucas relações, e dava-se intimamente com Ricardo Browne, o arbitro da moda…
O Porto e a vida reclusa de sua mãe deviam ser intoleráveis a Paiva Araújo. Browne saiu para Paris, e ele para Lisboa, onde se notabilizou facilmente pelas prodigalidades das suas despesas. Bulhão Pato, em um dos seus escritos entristecidos pela saudade daquele tempo, fala do cavalheiro Paiva Araújo. Dava jantares aos rapazes da alta linha, a colmeia do Marrare do Chiado, parte dos quais ainda vive mais ou menos pintada ; e, feito o ultimo brinde, quebrava a louça do toast, voltando a mesa como quem ergue a tampa de um baú. Pagava generosamente o prejuízo. O seu vinho, além de reduzir os cristais a cacos, não tinha mais funestas consequências. Assim que perfez a idade legal, pediu o seu património paterno á mãe, e foi viajar. Recebeu letras no valor de cento e tantos contos.
Conheceu então em Baden-Baden a deslumbrante mulher que chegara da exploração dos lords com um pecúlio que lhe permitiu construir um palácio. Casou.”..(…)…
“Paiva Araújo, casado, visitou Lisboa e a mãe, com a esposa. A polaca no Porto, no topo da fétida rua do Bonjardim, com a nostalgia de Paris! . . Certas mulheres que viveram em Paris, nas máximas condições de horizontalidade, só lá podem viver.
Dois anos decorridos, Paiva Araújo abandonara a viúva do alfaiate, mais ou menos espontaneamente, a um dos cinco mil príncipes russos que dão mobília nova aos bordeis parisienses, e regressou a Portugal com bastantes malas inglesas, uma dúzia de floretes, outras tantas caraças e manchetes, a fora algumas dividas. A mãe pagou-lhe as letras, e perdoou-lhe o casamento e a dissipação do património. Durante quatro ou cinco anos, Paiva viveu muito recolhido no Porto, mas frequentando pouco a convivência da mãe. Habitava uma casinha de duas janelas, situada na extremidade do jardim. Saía de noite, recolhia de madrugada, e passava o dia a comer e a dormir. Um escudeiro levava-lhe em tabuleiro coberto o almoço e o jantar da cozinha da mãe, que ele raras vezes procurava. Era-lhe odiosa, porque lhe não dava dinheiro para sair de Portugal, e apenas lhe enviava mensalmente o necessário para dignamente se tratar na sociedade pacata, frugal e económica do Porto.
Em 1855 e 56 encontrei-o muitas tardes nos pinhais e carvalheiras da Prelada e de Lordelo, passeando com uma francesa de muita vista, escultural, com a trança dos cabelos louros desatada sob as amplas abas d’um chapéu de palha azul ondulante de fitas escarlates. Se eu procurasse o nome dela na sepultura para lho dizer, não o acharia, porque a francesa, d’um espirito raro, morreu na obscuridade da pobreza, e d’uma velhice que redime e pede perdão para os delitos da juventude.
D’essa época lembram-me dois episódios de Paiva Araújo. A Macaense dera azo a que se soubesse cá fora que o filho a quisera matar com veneno, para empolgar a herança. O «Jornal do Porto» dera a noticia com discreta prudência; mas Paiva foi insultar com ameaças de azorrague o honrado proprietário daquele jornal, que desviou de si a responsabilidade da noticia, aliás verdadeira. O outro caso, mais cómico pelas consequências, foi um duelo á espada, por motivos melindrosamente caseiros, com um fidalgo portuense chamado D. António Peixoto Pinto Coelho Pereira da Silva Padilha de Souza e Haucourt, simplesmente. Se bem me recordo, Paiva Araújo desarmou, com pouca efusão de sangue, o contendor. D. António, alucinado com o êxito do duelo, atirou se da ponte Pênsil sobre . . um barco rabelo de batatas que vinha mansamente descendo o Douro. E saiu sem contusão d’entre as batatas que, de certo, não eram tão macias e flácidas como os almadraques de um califa de Córdova…
E quem era la Paiva?
Para quem estiver interessado, além da leitura da história,  pp. 449-451 do livro (1), sugiro  a leitura “esboço incompleto da extraordinária história de La Paiva (1819-1884)”, na “biografia” mais completa de  (Esther) Thérèse Pauline Blanche Lachmann no Blog “Do Porto e não só …” (4) e  “Los Diamantes de La Paiva” (5).
E continua Camilo (3)
“Em 1860 encontrei Paiva Araújo em Braga, seccionando francês no colégio da Madre de Deus, no palácio dos Falcões, onde uma família estrangeira tentava inutilmente a fortuna. O marido de Branca Lachmann, n’esse ano, trajava menos que modestamente. O seu casaco e chapéu, em tais condições, não lhos aceitaria um dos seus antigos criados. Dobaram-se alguns anos em que nada averiguei ; até que, em 1873, li nos jornais portugueses que Paiva Araújo se suicidara em Paris. Conversando a tal respeito com António Augusto Teixeira de Vasconcellos, em Lisboa, por 1874, me disse o famoso escritor, que o conhecera muito em Paris, e tinha exactas informações da sua morte. O marido indigente de madame de Paiva procurou congraçar-se com a sua marquesa, que vivia opulentamente no seu palácio de Pont-Chartrin o das 365 janelas, decorado por Paul Baudry, ligada ao conde Henckel de Donnesmark. Ela repeliu-o. Paiva manteve-se algum tempo de empréstimos, e pequenos donativos talvez da mãe com que ia disfarçando a sua pobreza aos olhos de outros a quem tencionava recorrer. Um dia, era grande apuro, escreveu pedindo 2.000 francos a um rico e antigo conviva dos seus desperdícios, e, juntamente com a carta, meteu na algibeira do frac coçado, um revolver. A carta foi, posta interna, ao seu destino, e a resposta, no dia imediato, foi entregue ao porteiro do hotel. Quando voltou a casa e leu a resposta negativa, ainda subiu alguns degraus, e, no primeiro patamar, caiu moribundo com um tiro no peito. Se bem me lembro, foi o ministro português quem pagou o carro que conduziu o cadáver ao Père La Chaise.”
NOTA:A cidade do Porto foi a primeira cidade portuguesa a ter os carros americanos. Em 1858, Albino Francisco de Paiva Araújo, solicitou ao Governo “concessão para estabelecer um caminho de ferro dos denominados americanos” entre esta cidade nortenha e a Foz, não consegue a autorização da «embora esta tenha sido obtida pelo Barão da Trovisqueira em 1870.” (6)
1) MARTINS, Luís Almeida – 365 dias com histórias da História de Portugal. A Esfera do Livro, 3.ª edição, 2011, 694 p., ISBN  978-989-626-337-9
(2) http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=632687
Albino Francisco Araújo de Paiva
Macau 18.05.1824 + Ile de France, Paris 08.11.1872
Pai:  Albino José Gonçalves de Araújo 1797
Mãe:  Mariana Vicência de Paiva  22.07.1802
Casamento Ile de France, Paris 05.06.1851
Thérèse Pauline Blanche Lachmann  07.05.1819
Não houve descendência deste casamento
A Macaense” Mariana Vicência de Paiva nasceu em Macau 22.07.1802 (7)
Pai: Francisco José de Paiva c. 1758
Mãe: Inácia Vicência Marques,
Casamento: Macau, S. Lourenço 08-01-1823 com Albino José Gonçalves de Araújo,  1797
(3) BRANCO, Camilo Castelo – Madame de Paiva, pp. 535-541 in SANTOS, Carlos Pinto; NEVES, Orlando – De Longe à China, TOMO II. Instituto Cultural de Macau, 1988, 781 p.
(4)  http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/esboco-incompleto-da-extraordinaria.html
(5)  http://retratosdelahistoria.lacoctelera.net/post/2009/11/02/los-diamantes-la-paiva
(6) MARTINS, Fernando Pinheiro – O carro eléctrico na cidade do Porto. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, 2007.
     http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/12819/2/Texto%20integral.pdf
(7) http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=632716