Este Livro (1), coordenada pelo jornalista David Barrote e publicada pela Secção de Propaganda, Publicidade e Turismo da R.C.S.E., é uma monografia da visita do Ministro do Ultramar a Macau, ocorrida entre 18 de Junho e 1 de Julho de 1952. O jornalista David Barrote, enviado especial do “Notícias de Macau” seguiu de Macau a bordo do aviso de 2.ª classe “Gonçalo Velho” (partida do porto de Macau em 21 de Março) até Goa onde embarcou o Ministro e comitiva para a sua visita a Damão e Diu, passando depois por Malaca e Singapura, e por fim a Timor e Macau. “O Gonçalo Velho” largou da Índia Portuguesa no dia 12 de Maio tendo chegado a Timor em 29 de Maio e largou de Timor no dia 7 de Junho a fim de estar em Macau na data fixada a 14 de Junho. No entanto por causa dum tufão precisamente na rota do navio (a rota era Timor-Macassar-Macau), o “Gonçalo Velho” desviou para Manila e depois de deixar aquele porto filipino, fundeou no Golfo de Lingayen ao largo da Ilha de Luzon, tendo chegado a Macau somente no dia 18 de Junho. O Governador de Macau na altura era Joaquim Marques Esparteiro.
O livro além duma descrição muito pormenorizada da visita, apresenta muitas fotografias.
Acerca da passagem do Ministro por Malaca, não resisto a transcrever uma passagem duma reportagem da Revista Macau (2) “Ser português na Malásia” do jornalista Marco Carvalho (Junho de 2007):
Josephine, 69 anos, tinha apenas catorze quando, em 1952, o então Ministro português do Ultramar, Sarmento Rodrigues, aportou a Malaca a bordo da fragata Gonçalo Velho. Três séculos depois do fim da soberania portuguesa sobre a cidade, a visita de um dos mais altos
dignitários do Governo português ligava de novo a comunidade dos luso-descendentes de Malaca a um mundo lusíada uno e indivisível. à luz da ideologia do então todo poderoso Estado Novo. O Bairro engalanou-se para a recepção a Sarmento Rodrigues. O ministro foi presenteado com poemas declamados em kristang e com uma apresentação de danças folclóricas portuguesas especialmente ensaiada para a ocasião. A ideia de colocar pescadores malaios a dançar a …. “Tirana” e o “”Vira Minhoto”, teve-a Manuel Pintado, um sacerdote português que a Diocese de Macau enviara para Malaca quatro anos antes.
As músicas e os passos de dança foram em parte apreendidos a partir dos ensinamentos do pároco e em parte recriados tendo as páginas do livro “Folk Dances of Portugal”,da musicóloga inglesa Lucile Armstrong, por alicerce.
Uma outra musicóloga, a norte-americana Margaret Sarkissian (que viveu durante vários anos no kampung portugis e estudou a importância do folclore na afirmação cultural da comunidade) defende no estudo “Being  Portuguese in Malacca: The Politics of Folk Culture in Malaysia” que a visita de Sarmento Rodrigues constitui o acto fundador da moderna identidade dos kristang. A representação oferecida ao ministro foi tão bem sucedida que a comunidade acabou por se apropriar de tais expedientes e símbolos culturais de origem portuguesa (a música, a dança e os trajes garridos), incorporando-os num legado de cinco séculos que era até então constituído por uma língua periclitante, pela fé inabalável nos desígnios da cristandade e por um ou outro prato ainda com nome português.
Josephine de Costa foi, em Maio de 1952, uma das raparigas que dançou para Sarmento Rodrigues. “Sabe quem é Sarmento Rodrigues? O Padre Pintado disse que Sarmento Rodrigues vinha ao Bairro Português e nós propusemo-nos a dançar para ele. Veio de barco desde Lisboa e nós cantámos-lhe uma canção de boas vindas e depois dançámos.” O folclore é desde então parte do Quotidiano dos “portugueses”de Malaca e um dos principais rasgos de afirmação cultural da comunidade. Josephine integra com o filho Geral, com a nora e com os netos a “Tropa de Malaca”.

Sobre esta mesma visita, aconselho uma leitura ao artigo de Jorge Rangel “Falar de Nós” no JTM de 15-09-2008.
http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=292602004
(1) BARROTE, David (coordenação) – A Visita do Ministro do Ultramar a Macau em Junho de 1952. Editado pela Repartição Central dos Serviços Económicos (R.C.S.E.), 328 p.
(2) http://www.revistamacau.com/index.php/lusofonia/3531.html