A propósito do ano novo chinês e do poéma “ÁNO VÊLO, ÁNO NÔVO” de José dos Santos Ferreira (1), publicado no post do dia 1-1-2012, em que menciona o jogo “Clu-Clu”, pessoas amigas perguntaram-me sobre este jogo.
Transcrevo trecho do Capítulo III do livro de Jaime do Inso (2), referente a este jogo:
…O Clu-clu é um jôgo privativo do Ano Novo. O Ano Novo dá lugar à maior festa dos chineses, festa que participa do religioso e do profano, uma religiosidade à moda chinesa, diferente da nossa – festa da família, festa do negócio, festa nacional…
               – Able! Able! – a língua chinesa não tem rr e os chineses não podem ou não sabem pronunciar esta letra, pelo que, em vez de abre, dizem: able.
               Sôbre a banca de Clu-clu está uma tijela invertida que tapa os dados.
               Aproximam-se os jogadores e fazem as suas paradas.
               No tampo da mesa encontra-se traçado uma espécie de largo xadrez com números e caractêres chineses, numa policromia de  côres que se casa bem com o ambiente festivo, e o banqueiro, metendo os dados na tijela que cobre com as mãos, vae-os sacudindo, o que produz um ruído característico, que se ouve por todas as ruas do Bazar, ao mesmo tempo que exclama – Able! Able!
               Poisa, então, os dados sôbre a mesa, conservando-os tapados com a tijela, à espera que os pontos se animem a jogar, cobrindo os diferentes quadrados, e convida ainda os jogadores, com o mesmo estribilho, às vezes variado com a expressão nhonha que, em dialecto macaense, significa senhora:
               – Able, nhonha, able!
               E quando vê a banca suficientemente guarnecida, abre, isto é, levanta a tijela e vê os dados, não sendo raro suceder que o banqueiro dê às de Vila Diogo, abandonando a banca, quando esta vá à glória.

               Os chineses são apaixonados pelo jôgo e tudo lhes serve para jogar, até os dedos, quando não teem outro meio, mostrando dois jogadores uma das mãos, simultaneamente, com um certo número de dedos estendidos e verifiando, a seguir, se o número de dedos apresentados é par ou impar.
               Por isso, as bancas de Clu-clu, a-pesar de abundarem por todo o Bazar e imediações – naquele ano forma concedidas mais de quatrocentas licenças – é raro estarem desertas durante os cinco dias em que o jôgo é permitido, constituindo também uma diversão para os europeus.
               Aquela primeira banca de Clu-clu com que topamos, é uma banca pobre, mal armada e quási solitária mas, à medida que avançamos, vão aparecendo outras, mais animadas, mais ricas e cada vez mais frequentes, quási a cada passo, chegando, algumas, a ostentar certo luxo, desde a iluminação, à noite, uma iluminação a jorros, com electricidade e luzes de incandecência, até ao sortear dos dados,substituindo-se a tijela por uma esfera, donde saem, a correr, pela boca dum dragão.
               – Able nhonha, able, able!
               O pregâo corre pelas ruas e travessas, de mistura com o tic-tac do bater dos dados, co           mo uma nota característica do Ano Novo em Macau, e até nos pontos extremos da influência festiva do Bazar, se vêem míseras bancas de  Clu-clu, desgarradas e solitárias, iluminadas a custo com a luz amarela dum velho candieiro de petróleo.
               O china triste fareja algum ponto de acaso e, com paciência evangélica, poisa ali horas a fio, até que acaba por levar a traquitana para outro lado.
               -Quanta pataca fôra, Mimi?
               – Nunca ganhá !
               E a nhonhazinha galante, ao ser interprelada, esquiva-se à curiosidade do compatriota, a caminho dum Cou-lau, ou restaurante chinês, para saborear a tradicional sopas de fitas.
               É Ano Novo e o Clu-clu reina no Bazar.
               – Able! Able!.
Segundo PASCOAL  (3) “Gambling is a secular chinese passion and has been in use in Macau since ancient times. Originally, it was only permitted chinese game, special mention to FAN-TAN and PAI JIN.
In the beginnining of the century, chinese people began to play CUSSEC also, locally know as CLU-CLU, name given due to the shaking noise of 3 dices inside a porcelain or metal cup…
…Clu-Clu (cussec) was played on the streets in every festive day of the new chinese year, during which, every one could be granted a small gambling licence, t o explore clu-clu gambling tables. Almost every rick-shaw coolies used to do so.”
                    
Estes desenhos que retirei do site mencionado (3), são esboços e desenhos de George Chinnery (4) de jogadores de rua.
 
(1) FERREIRA, José dos Santos – Poéma na Língu Maquista. Livros do Oriente (com o patrocínio do IPOR), 1.ªEdição, 1992, 108 p. , 18 cm x 18.5 cm, ISBN 972-9418-10-
(2) INSO,  Comandante Jaime do – Cênas da Vida de Macau. Edições Cosmos, Lisboa, Cadernos Coloniais, n.º 70, 1941,  37 p + 1 (1)
Sobre este livro, ver post anterior “Cênas da Vida de Macau
(3) PASCOAL, Carlos – Macau, brief summary of gambling
                    http://cctn.ccgtcc.com/Macau.pdf
(4) George Chinnery (錢納利) (19774-1852) viveu em Macau durante 27 anos, de 1825 a 1852 (ano da sua morte). Está sepultado no Cemitério Protestante de Macau