BRUNO, Emílio de San – O Caso da Rua  Volong, scenas da vida colonial, Lisboa, 1928.. Tipografia do comércio, Oficina Gráfica, L.da, Rua da Oliveira (ao Carmo)  8, 414 p.

Este livro que adquiri num mercado de rua (“livros velhos”), em Lisboa, em mau estado de conservação, tem uma marca de carimbo na pág. 3: “Biblioteca José Carlos Pinto Gonçalves”  (????)
Este livro, em 1928, ficou em 2.º no Concurso do Prémio de Literatura Colonial  da Agência Geral das Colónias  (1)1928
1.º não atribuído
2.º Emílio de San Bruno, O caso da rua Volong
3.º Julião Quintinha, África misteriosa

Segundo skocky-alcyone.blogspot (2) :
O nome do pretenso autor, EMÍLIO DE SAN BRUNO é pura ficção!   Quem escreve a obra é quem assina o “PRÓLOGO`, com data de Lisboa, 1925, é CARLOS CRISPIM DA CUNHA CARVALHO??? que se «identifica»  como ex-chefe duma secção colonial de um Banco, que nesse malfadado ano de 1925` fechou as suas portas…
O “PRÓLOGO”  diz-nos que em um domingo, no princípio de 1925, depois de uma visita a um conhecido, subiu ao Largo da Graça e por mero acaso de uma chuvada viu na rua da Verónica a clássica bandeira dos leilões. Ficou curioso e decidiu subir…
Vendo uma pequena caixa de madeira de cânfora que continha diversas bugigangas…foi revolvendo com indiferença, e com a ponteira da bengala, aquele lixo colonial, que entreviu no fundo da velha caixa…uns cartões bafientos a capear umas folhas manuscritas.
Que seria?
O empoeirado maço de papeis estava atado e continha quatro fascículos! Cada um deles tinha o seu título:
1º. «GADIR E MAURITÂNIA», por EMÍLIO DE SAN BRUNO
2º. «ZAMBEZIANA»
3º. «A VELHA MAGRA DA ´ILHA DE LOANDA`»
4º. «O CASO DA ´RUA VO-LONG` , nº 7, em MACAU»
Gulosamente decidiu ficar com a caixa de cânfora e seu conteúdo bizarro… Leu com vagar os apontamentos dos folhetos, …evidentemente escritos sob o pseudónimo de EMÍLIO DE SAN BRUNO..”.

Segundo Professor David Brookshaw, no seu trabalho “Entre o Real e o Imaginado: O Oriente na Narrativa Colonial Portuguesa” (3):
Emílio de San Bruno é o pseudónimo literário de Filipe Emílio de Paiva, outro oficial da marinha, contemporâneo de Jaime do Inso, que esteve alguns anos em Macau no início deste século, além de servir em outros territórios do ultramar. O Caso da Rua Volong (1928) foi um de três romances escritos para apoiar o esforço colonial português, sendo os outros A Magra da Ilha de Luanda (1927), cuja acção decorre em Angola, e Zambeziana (1929), que tem como palco Moçambique. Nos três romances, o protagonista principal é o mesmo: Paulo, jovem oficial da marinha. No entanto, ele é mais observador das acções dos outros do que participante no drama da história. É o prototipo do bom colonial já que não se rende perante atraçoes que o poderiam comprometer nas suas funções”

E analisava assim o livro,  a propósito do tema:
Em O Caso da Rua Volong, é a paixão do Conde de Palhais pela enigmática Miss Grace, portuguesa mascarada de americana, vítima de uma indiscreção do próprio Conde em Lisboa, e que o seguiu ao Oriente com a intenção de recuperar o seu amor. Poderíamos estar em plena comédia shakesperiana, se não fosse que o romance acaba numa tragédia melodramática. Tal como o herói de Jaime do Inso, Miss Grace se rende às atrações do Oriente na pessoa de Mansilla, elegante cavalheiro hispano-americano nos serões da alta sociedade de Macau, mas que na realidade é nacionalista filipino, e contrabandista de armas sem escrúpulos. Mansilla encarna as forças anárquicas e exóticas que atraem e destroem: «Sorria-se para mim, cravando no meu olhar atónito, o seu olhar fascinador, donde sentia, mau grado meu, irradiar uma força magnética poderosíssima. Como estava belo!» (Bruno, 380-1)…(…)…
Como colonialista, e autor de um romance que ia concorrer para o prémio da Agência Geral das Colónias, San Bruno nao podia acabar num tom tão pessimista. Como o seu contemporâneo, Jaime do Inso, cujo livro também ganhou um prémio da Agência, concluiu positivamente o seu romance, recorrendo a uma técnica já conhecida dos românticos: o narrador se distancia do período em que se desenrolou a acção da história, ao informar os seus leitores que o manuscrito tinha sido achado num velho baú. Refere, portanto, a uma situação que já não existia: «Hoje, Macau, já difere, em civilizado confôrto, e em adequadas obras de fomento, do daquele tempo, em que o autor dos folhetos coloniais por lá andou» (Bruno, 413-4). San Bruno escrevia quando a ditadura de Salazar estava-se consolidando, criando as condições para a imposição da lei orgânica que ia entrar em vigor no império a partir da década de 30. … (…)…
Por fim, em O Caso da Rua Volong, Maria José, macaense, católica, é outra possível parceira para um oficial português. Porém, aqui, San Bruno teve que proceder com cuidado: por um lado havia uma longa tradição de portugueses a casarem com filhas da terra. Por outro lado a legislação colonial, reiterada pelo regime salazarista (Decreto de 1941), discriminava contra o casamento de oficiais do império com mulheres não européias. Na prática, acontecia, e San Bruno o admitia, sendo o exemplo no romance, o capitão do porto de Macau, residente na colónia há mais de trinta anos e casado com uma macaense, mas a origem desta união se achava no mesmo processo de sedução quase clínica que fazia os portugueses abandonarem o seu papel de colonizador, e daí a sua Pátria, processo portanto, no fundo negativo e a ser evitado: «… ter-lhe-ia a nhonhita que o encantara dado a comer o doce de nymphea alfa, o lin chin dos indígenas, cujo fruto tem, segundo dizem, a virtude de fazer esquecer aos europeus a família e a Pátria, quando dela comem a dose calculada para o efeito?»(Bruno, 75). Quanto a Maria José, meio caminho entre as tentações da angolana branca e a anárquica força sedutora de Dona Rosário, afigura-se como um ser essencialmente solitário, uma mulher que se embranquece com talcos sem esperança de achar marido entre os portugueses.”

A Rua Volong  começa na Calçada do Poço e termina na Estrada do Cemitério e no livro, há uma referência, na pág. 107: ” na Rua Volong n.º 7, rua muito socegada e limpa, num bairro novo onde o rico Chico Volong que se naturalizara há pouco tempo português, construíra quási tôda a rua, tendo comprado os terrenos ao Leal Senado

Segundo Mário Botas (5) “O Volong que lhe deu o nome foi Francisco Volong, negociante chinês, cristão, que em 1856 obteve a naturalização portuguesa.”

Retirei esta foto da Rua Volong de Travel Blog da autoria de James Clark   (6)

Em próximo post,  irei apresentar outros trechos “curiosos” do livro.
Há uma crónica de Maria Caetano, sobre a Rua Volong , no “Ponto Final” em (4)

(1)http://literaturacolonialportuguesa.blogspot.com/2008/05/concursos-e-vencedores-do-prmio-de.html
(2) http://skocky-alcyone.blogspot.com/2011/05/zambeziana-scenas-da-vida-colonial.html
(3) http://www.ueangola.com/index.php/criticas-e-ensaios/item/256-entre-o-real-e-o-imaginado-o-oriente-na-narrativa-colonial-portuguesa.html
(4) http://paragrafopontofinal.wordpress.com/page/2/
(5) http://macauantigo.blogspot.com/2009/12/bairro-da-horta-do-volong.html
(6) http://www.itravelnet.com/photography/asia/macau/macau/rua-do-volong.html