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Continuação da reprodução dos mapas de Macau, já apresentados em anterior “post”(1), do Boletim da Agência Geral das Colónias de 1929 (2)

Mapa de Macau e Arredores 1929 (AGC) II“Macau – O novo pôrto de Macau e a sua situação no Extremo Oriente”

 O mapa de Macau e a Ilha da Taipa com a escala de 1 / 80.000 e a outra com a escala de 1/100.000.000.
Assinalado a duração da carreira marítima para Cantão de 8 horas e para Hong Kong de 4 horas. No mapa à esquerda, a indicação do chamado “Porto Novo” com os aterros desde a Fortaleza de S. Francisco até à praia de Cacilhas(posteriormente chamados aterros do Porto Exterior)

Mapas de Macau 1929 Projecto aterroMapa com o projecto para o aterro da parte norte da enseada da Praia Grande e prolongamento e rectificações das ruas e avenidas existentes.

Assinaladoas neste mapa, algumas propostas interessantes, de espaços, avenidas e edifícios públicos, mas que nunca foram concretizadas: uma “Avenida de Portugal” (paralela a norte da Avenida Almeida Ribeiro com indicação de “trenvias e eléctricas” (instalação de «eléctricos») (3) passando por uma “Praça Afonso de Albuquerque” com um “Lago” e um “Tribunal”;  um “Museu” sensivelmente à frente de Sta Clara (Colégio de Santa Rosa de Lima), uma “Avenida da Catedral” que ligaria  a Sé Catedral à Rua das Estalagens e Ruínas de S. Paulo.

Propostas que foram concretizadas: prolongamento da “Avenida Almeida Ribeiro para os novos aterros da Praia Grande, a rectificação da “Rua Conselheiro Ferreira de Almeida (depois classificada como Avenida), o prolongamento da “Avenida Sidónio Paes”

Algumas sinaléticas também interessantes no mapa: atrás do “Cinema Victória” existia um “Hotel Presidente”; atrás do “BNU” estava um “Hotel”; uma “Calçada de Sta Clara” (hoje Jardim S. Francisco).

(1) http://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/03/12/mapas-de-macau-de-1929-i/  
(2) Boletim da Agência Geral das Colónias, Ano V, N.º 53, Novembro de 1929, 236 p., + |8|.
Sobre este número, dedicado a Macau, ver anterior “post”
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/11/10/leitura-macau-no-boletim-da-agencia-geral-das-colonias-1929/
(3) “Tranvia electrica” – caminho de ferro de carris, pelo sistema americano (do castelhano tranvia, do inglês tramway) (Dicionário da Língua Portuguesan de Cândido de Figueiredo.

No dia 3 de Janeiro de 1864, (1) realizaram-se em Macau, por motivo do nascimento de D. Carlos, (2) estrondosos festejos com iluminações, récita de gala no Teatro D. Pedro V (3), banquete no Palácio do Governo e no do Barão de Cercal (4), fogos de artifício e outros divertimentos no Campo de S. Francisco (5), tendo tido os espectáculos teatrais chineses, realizados nos dias 4, 5 e 6, uma frequência diária de quatro a cinco mil espectadores (6)

Rei D. Carlos I
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Carlos_I_de_Portugal.jpg
(1)   Já em 1 de Dezembro de 1863 havia sido celebrado, em Macau, o nascimento do príncipe. Idênticas celebracões festivas pelo Príncipe, foram realizadas a 12 de Maio de 1864, pelo reconhecimento como sucessor do trono e quando o Príncipe se casou, o Decreto de 13 de Maio de 1886 ordenou igualmente festejos públicos, o mesmo se verificando a 22 de Março de 1887, pelo nascimento do Principe da Beira.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9).
(2)   D. Carlos I de Portugal (nome completo: Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon e Saxe-Coburgo-Gotha), filho de D. Luís I e de Maria Pia de Saboia. Penúltimo rei de Portugal.
Nasceu em Lisboa a 28 de Setembro de 1863 e faleceu a 1 de Fevereiro de 1908 (morto pelos disparos, no Terreiro do Paço). Subiu ao trono em 1889.
(3)   Sobre o Teatro D. Pedro V, ver:
      http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/08/leitura-o-teatro-d-pedro-v-ii/
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/07/noticias-de-7-de-marco-de-1857-teatro-d-pedro-v-i/
(4)   Sobre o Palácio e o Barão de Cercal, ver:
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/31/noticias-31-de-outubro-de-1872/
(5)   Em 1861 o governador Coelho do Amaral mandou demolir o Convento de S. Francisco, (嘉思欄修院 / 聖方濟各修院), fundado por franciscanos castelhanos a 2 de Fevereiro de 1580, (por isso, na toponímia chinesa ,o jardim de S. Francisco  tem o nome de Ka-Si-Lán-Fá Yun, 加思欄花園,isto é “Jardim dos Castelhanos“). Em 1585, os franciscanos castelhanos foram substituídos por franciscanos portugueses e, em 1834, por as ordens religiosas terem sido extintas em Portugal e por isso também em Macau, o Governo de Macau tomou posse do terreno e seus bens.
O Convento foi demolido e, no seu lugar, construído um quartel, batalhão de primeira linha, que o destacamento ocuparia a partir de 30 de Dezembro de 1866.
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/11/29/leitura-descripcao-de-macau-em-1837/
Toponímia Jardim de S. FranciscoA zona arborizada foi transformada em jardim público – Jardim de S. Francisco considerado o 1.º jardim público de Macau. O jardim tinha sucessivos patamares até ao Rio das Pérolas e perdeu essa ligação ao mar com os aterros da Praia Grande, em 1920. Posteriormente com a abertura da Rua da Santa Clara, em 1935, foi-lhe retirada vasta área (destruída também o coreto onde a alta sociedade convivia ao princípio da noite e ouvia música).
(6)   GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.

NOTA 1: Aproveito para chamar a atenção para um trabalho de investigação de Joana S. Pinto Brun sobre “Os Jardins Históricos de Macau”. Trata-se de um trabalho de dissertação para mestrado em Arquictetura Paisagística (Universidade Técnica de Lisboa) de 2011 e que recomendo a sua leitura, disponível em:
http://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/…/Dissertacao_JoanaSPBrum.p…‎

Convento de S. FranciscoConvento de S. Francisco

(TEIXEIRA, Pe.. Manuel – Os Militares em Macau. Edição do Comando Territorial Independente de Macau, 1976, 614 p.)

NOTA 2: Recordo ainda aqui a canção dedicada ao “Jardim de S. Francisco”, da Tuna Macaense, de 1997, do album “Titi Bita di Lilau”. A melodia é de António dos Santos Dias. Disponível no You Tube:
http://www.youtube.com/watch?v=Q3RCf0ugE0w

Macau cidade pitoresca IIMacau cidade pitoresca IUm artigo (com fotografias legendadas) de M. Antunes Amor, inspector de Instrução Primária do Estado da Índia, publicado na “Ilustração Portugueza“, n.º 896, 1923 pp. 495-497.
Manuel Antunes Amor esteve em Macau, em 1922, onde realizou um “filme” destinado à Exposição do Rio de Janeiro (1)

     “Quem não conhecer Macau de visu, não poderá fazer idéa das belezas naturais que ornam aquela nossa pérola do Extremo Oriente.
Gozando duma prosperidade, hoje inegualada por qualquer outra das nossa colonias, mercê dos milhões de patacas auferidos pelo Estado, com os monopólios do fabrico do opio (2), do jogo do fan-tan, das loterias do san-pio e p´u-pio, do sal, etc. (3)

Macau cidade pitoresca IIIA bahia da Praia Grande

     Macau deslumbra o visitante, pela actividade fabril e comercial dos seus oitenta mil habitantes da raça chineza, pela elegancia e riqueza das construções, pela limpeza e boa conservação do pavimento das ruas, pelo cuidado com que são tratados os seus jardins, pelas belas perspectivas que os acidentes do terreno oferecem e, finalmente, pelas grandiosas obras do porto de navegação oceanica, ha pouco iniciadas por uma companhia holandeza.

Macau cidade pitoresca IV1 – A Praia Grande vista do Jardim de S. Francisco

Macau cidade pitoresca V2 – Um Junco  chinez

          Para os chinezes multi-milionarios é lugar de repouso, gozo e segurança nos seus palacios encantadores. Para o viajante é a cidade rica de prazeres, o clima suave, a estancia pitoresca, onde os dias passam velozes, sem que os seus olhos se fatiguem de vêr.

Macau cidade pitoresca VI3 – O porto interior, visto de bordo de um navio

 Macau cidade pitoresca VII4 – O vapor Sui-An, da carreira de Macau-Hong Kong  (Este navio foi, recentemente, saqueado pelos piratas) (4)

             Para o militar e para o funcionario civil, se não fôr o Eldorado onde a «arvore da pataca» floresce e frutifica prodigamente, é pelo menos, o sitio do Ultramar que, no clima e nos hábitos de vida dos coloniais, mais se irmana à Mãe-Pátria.”

Macau cidade pitoresca VIII5 – O porto interior, coalhado de juncos e lorchas

 (1) “1922  (Maio) – Exibiu-se no Cinematógrafo “MACAU” um filme de Macau destinado à Exposição do Rio de Janeiro. Apesar de algumas passagens escuras, é muito interessante e foi inteiramente feita por um amador, Sr. Manuel Antunes Amor (Inspector de Instrução Primária do estado da Índia).” (2)
(2) Regista-se que com a realização da Terceira Conferência Internacional do Ópio, em 1914,  Macau iniciou a supressão total do uso do ópio com redução da sua importação. No ano de 1923, publicou-se no Território novo Regulamento do comércio do ópio. Na verdade, a boa situação económica de Macau de 1918 a 1921, deveu-se sobretudo ao rendimento do exclusivo do ópio.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)
(3) A data aproximada da criação do jogo de fan-tan é 1849.  O Pac-Hap-Piu foi regulamentado em 1876. O artigo, sendo de 1923, não menciona ainda a exploração de corridas de cavalo que terá começado em 1924.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3.  Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)
(4) “19-10-1922 – Durante a sua viagem de Macau a Hong Kong, o barco “Sui-An”´ da carreira entre estas duas cidades, foi assaltado e pilhado por 50 piratas chineses, disfarçados  em passageiros, e comandados por uma mulher, que foi logo prostrada por um tiro de revólver, disparado pelo comissário Frederico d´Eça, o qual lhe acertara num ombro. Durante o assaltado ficaram feridos o capitão do barco Birss e outros passageiros ingleses. O produto da pilhagem foi de $50.600 patacas
VER: http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/19/noticias-de-pirataria-19-de-outubro-de-1922/
GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.

Postal MACAU no Seculo XIX Jardim de CamõesPubliquei em (1), uma foto antiga, reproduzida em postal, da série “MACAU POST CARD”, com o título “Macao, Public Garden”,  em que no verso tem a seguinte legenda (em português, chinês e inglês): “白鴿巢公園 (3) / Park Camoes /Jardim de Camões.”

No entanto, “descubro” o mesmo Postal, reproduzido no livro de João Loureiro (2),  com o título “Jardim de S. Francisco / St. Francis Garden” (Editor/Publisher: Turco Egyptian Tobacco Store – Hong Kong) , cerca de 1900.

Reparo também que uma foto, com imagem muito semelhante, que publiquei em (3), da série “POSTAIS – MACAU ARTÍSTICO” (4), de 1922, apresenta o título “Jardim de S. Francisco”.

MACAU e o seu porto - Jardim S. FranciscoAssim, fica-se a dúvida embora, em minha opinião, a legenda mais correcta para o primeiro postal, seria: “Jardim de S. Francisco“.

Embora conste anteriormente, indicações do Jardim de S. Francisco, o aforamento deste Jardim foi somente a 7 de Setembro de 1899. (5)

(1) http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/02/20/postal-antigo-macau-do-seculo-xix-ix-jardim-de-camoes/
(2) LOUREIRO, João – Postas Antigos de Macau. Edição de João Loureiro e Associados Lda., 2.ª edição, 1997, 139 p.
(3) http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/18/postais-macau-artistico-v/
(4) LACERDA, Hugo (coord) – Macau e o seu futuro porto. Macau: Tip. Mercantil – N. T. Fernandes e Filhos, 1922, 84 p.:il; 25 cm + |2| mapas desdobr.
(5) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)

Postais fotográficos publicados num livro de 1922 – na sequência dos publicados anteriormente em (1)

 Jardim de S. Francisco TorreãoJardim de S. Francisco /Torreão (2)

Kum Iam TongVista interior do pagode Pou-Chai-Sin-Yun em Mong Há / Templo de Kun Iam (Kun Iam Tong)

 O Templo de Kun Iam foi construído em 1627 (sétimo ano do reinado do imperador Tian Qi / 天啓 (1620-1627), o templo mais antigo de Macau, (3) em Mong Há (Avenida Coronel Mesquita) , no local onde já existia desde o reinado de Wan Li /萬曆 (1573-1620), o mosteiro de Pou Chai Sim Un (Templo de Pou Chai).

Fotos sem grande qualidade na sua impressão mas valem pelo valor histórico. Muitas destas fotografias foram já impressas, com melhor qualidade, noutras publicações.

(1) http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/11/15/postais-macau-artistico-i/
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/12/15/postais-macau-artistico-ii/
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/12/30/postais-macau-artistico-iii/
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/09/postais-macau-artistico-iv/
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/18/postais-macau-artistico-v/
(2) Sobre o Torreão ver:
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/20/servico-postal-militar-em-macau/
(3) Em 1277, cerca de 50000 apoiantes e alguns membros da Dinastia Song/宋朝, fugindo dos invasores mongóis, chegaram a Macau e construíram várias povoações, sendo a maior e a mais importante delas localizada na região de Mong-Há (que se localiza no Norte de Macau). Pensa-se que o templo mais antigo de Macau, o Templo de Guanyin /Kun Iam Tong / Templo da Deusa da Misericórdia, se localizava precisamente nessa região.
觀音堂  (mandarim pinyin: guan yin táng; cantonenese jyutping:gun1; jam1tong4)

Sobre este templo, recomendo leitura de
http://cronicasmacaenses.com/2012/05/11/templo-budista-kun-iam-tong-de-1627-em-macau/

MACAU e o seu porto - Praia GrandePraia Grande

MACAU e o seu porto - Templo BarraPagode  Ma-chu-min na Barra

(Templo de A-Má /Ma Kok Miu/Templo da Barra)

MACAU e o seu porto - Jardim S. FranciscoJardim de S. Francisco

MACAU e o seu porto - Farol da GuiaFarol da Guia

(Em primeiro plano o Cemitério dos Parses e a seguir a Casa de Silva Mendes e o início da Estrada de Cacilhas. Notar que ainda não havia a Rampa do Padre Vasconcelos.

NOTA: postais fotográficos de LACERDA, Hugo (coord) – Macau e o seu futuro porto. Macau: Tip. Mercantil – N. T. Fernandes e Filhos, 1922, 84 p.:il; 25 cm + |2| mapas desdobr.

“A via pública, que principia no sítio onde se cruzam as Ruas da Praia Grande, Santa Clara e Formosa, e termina entre a Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida e Rua Ferreira do Amaral, ao fundo da Calçada do Poço, é vulgarmente designada como o nome de Rua do Campo, por ter sido este o caminho que ia dar ao terreno aberto que ficava outrora fora das muralhas da cidade.
Os chineses chamam a essa rua Sôi-Hâng-Mêi (Extremo do Regato), nome que evoca, porventura, o facto de ter havido noutros tempos, algum fio de água que vertia pela encosta do Monte abaixo.

                          FOTO DE MAN FOOK – RUA DO CAMPO 1907

Ora contam que nessa rua existia um enorme casarão com um grande jardim, sendo seu dono um abastado chinês, mas depois da época de kuâi-tchân-ôk (os demónios abalam as casas), isto é, em que Macau foi visitada por uma assustadora série de abalos sísmicos, porém sem graves consequências , nunca mais ninguém ousou lá habitar, vindo o jardim desta vasta propriedade a ser aproveitado para se fazer o jardim de S. Francisco, que ficou separado do edifício por uma rua lateral.

                         HOSPITAL S. RAFAEL NA DÉCADA DE 60

A entrada principal do enorme casarão (1) ficava em frente do Hospital São Rafael (2) e o seu proprietário, que enriquecera com o negócio do sal, quando o mandou construir, julgou poder manter unida a sua família através de seis gerações. Infelizmente, à quarta geração, os seus descendentes foram obrigados a dispersar-se e a abandonar aquele casarão sem poderem satisfazer os desejos do seu ilustre ascendente.
O casarão possuía ao todo cinco entradas e trinta e um quartos e ninguém ousava habitá-lo por ser verificado que nele viviam vinte e oito almas penadas.
Como com o tempo, fosse aumentando o número dos espíritos da sombra, as pessoas incumbidas de tomar conta daquele inútil casarão, espalharam por todas as salas mil e um feitiços e pregaram e penduraram por todas as paredes inúmeros amuletos, a fim de ver se conseguiam, desta forma, evitar que o malfadado prédio continuasse a ser visitado por tão terríveis entes.
Efectivamente, durante algum tempo, os espíritos deixaram de aparecer mas, assim que descobriram a forma de anular os efeitos dos feitiços e amuletos, passaram outra vez a residir no casarão, tornando-o inabitável para os mortais.
Os herdeiros daquele casarão, que nada rendia, não olharam então a dinheiro e convidaram os mais afamados exorcistas e bonzos de todos as seitas, para celebrarem complicados esconjuros e encantações e entoarem demorados ensalmos, mas tudo foi baldado. Os bonzos acabaram por recomendar aos descorçoados proprietários para atravessarem a viga mestra do corpo principal do edifício com um espigão de ferro de oito braças de comprimento das quais seis deveriam ficar a descoberto no interior do edifício.
Este recurso também não deu resultado, pois, mal se escondia o sol, lá se ouvia por todos os cantos e recantos o perturbante mussitar dos fantasmas que decerto andavam segredando malévolos planos ou concertando misteriosas diabruras, e, na calda da noite, surgiam por entre a escuridade dos sobrados, estranhos vapores que se iam adensando, palatinamente, formando grossos novelos de impenetrável fumo que impediam a entrada de qualquer ousado visitante…” (3)
…………………………………………………………………..continua
(1) O casarão foi demolido.
(2) Hoje Consulado-Geral de Portugal.
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Lendas Chinesas de Macau. Notícias de Macau, 1951, 340 p. ; 19 cm.
Este conto está também inserido no livro,  (CÉSAR, Amândio – Literatura Ultramarina, Os Prosadores. Sociedade de Geografia de Lisboa, Semana do Ultramar, 1972, 197 p., 20,5 cm x 15 cm.), já referenciado em post anterior:
http://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/02/leitura-literatura-ultramari-na-dentro-do-barco-da-velha/

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